Iowa Através do Espelho: Vencedores Derrotados, Derrotados Vencedores

A Primeira Eleição da Corrida Presidencial Americana e suas Não-Decisões

imagem 2016 iowa caucus results

Então já está tudo decidido não é? A primeira eleição da corrida presidencial americana em Iowa, na última segunda-feira (1/2), apontou Ted Cruz como favorito para ganhar a nomeação Republicana à Presidência. Do outro lado, a vitória por meio ponto de Hillary Clinton, a Democrata, sobre seu oponente, o Senador socialista Bernie Sanders (I-Vermont), indicaria que a candidata estaria em sérios apuros, certo? Not so fast.

Como foi explicado no artigo anterior, a corrida presidencial americana é um processo bastante longo e um tanto complexo; assemelha-se a um camaleão se locomovendo, com suas inúmeras matizes, mudanças de aparência, cadências. Iowa, um pequeno estado rural no centro-oeste americano, é apenas a primeira etapa de uma jornada de cinco meses composta por cinquenta passos –isto é, cinquenta estados bastante diversificados, cada um com seu peso eleitoral e sua participação no processo.

Na verdade, Iowa serve para apontar tendências: qual dos candidatos emergentes é viável, e qual dos candidatos favoritos é débil. Nesse sentido, os resultados de Iowa são importantes, pois foi nessa primeira eleição que Obama, o “emergente”, revelou-se um candidato de peso em 2008, quando Hillary Clinton, mais uma vez, era a franca favorita. O consenso foi que o tamanho da vitória de Obama naquela ocasião, em comparação com o grau do fracasso de Hillary Clinton (que foi a última colocada entre três candidatos), impulsionou a campanha daquele que seria o candidato Democrata e posteriormente Presidente dos EUA.

No entanto a coisa é ainda mais complicada do que isso. Seguem algumas considerações sobre essa primeira eleição, onde nada é o que parece.

  1. Iowa não é um estado demograficamente representativo dos EUA. Trata-se de um estado rural, predominantemente branco. O eleitorado composto por minorias (mulheres, negros, latinos, asiáticos), é o que mais cresce nos EUA, tornando-se decisivo ao nível das eleições presidenciais. As três últimas categorias raciais compõem menos de 10% da população de Iowa; ao nível nacional, o peso desse novo eleitorado emergente, considerado a força que impulsionou Obama, chega a quase 40%.
  2. Em Iowa, os eleitorados de ambos os partidos tendem a maior rigidez ideológica: os Democratas são mais à esquerda, favoráveis aos princípios socialistas, ou estatizantes, defendidos por Bernie Sanders, oponente de Hillary; os Republicanos, por sua vez, são mais conservadores, formando uma base evangélica muito forte e numerosa que é o principal bloco eleitoral do Partido.
  3. Ted Cruz e Bernie Sanders estavam no seu quintal, e isto significa que eram, de fato, os favoritos para vencer. Ted Cruz, considerado o mais conservador dos candidatos Republicanos (é contra o aborto mesmo em caso de estupro e incesto, contra os direitos dos homossexuais, e a favor de incluir a religião nos currículos escolares americanos), mantinha boa organização no estado, no sentido de mobilizar o seu eleitorado de base. Bernie Sanders também estava bem afinado com os eleitores mais progressistas, universitários e urbanos, base do partido Democrata em Iowa. Assim como Ted Cruz, Bernie Sanders estabeleceu uma boa operação de mobilização eleitoral, utilizando a mídia digital, as redes sociais e uma organização de voluntários nos principais centros eleitorais no estado. Ambos os candidatos também conseguiram arrecadar bastante dinheiro para financiar suas campanhas. No entanto, a margem de vitória de Ted Cruz no estado foi pequena, e sua votação evangélica, considerada a grande força da campanha, dividiu-se entre Donald Trump e Marco Rubio. Quanto a Bernie Sanders, este era o estado onde precisaria vencer de forma mais decisiva, assim como Obama o fez em 2008. O fato de não tê-lo conseguido, no território dos mais férteis para ele em termos do eleitorado, torna sua jornada um pouco mais complicada daqui para frente.
  4. A vitória por meio ponto de Hillary Clinton num estado que é considerado dos piores para ela em termos dos eleitores foi um dado bastante positivo. A candidata Democrata conseguiu mais votos do que qualquer competidor Republicano, e é a primeira mulher a vencer um caucus em Iowa. Do lado Republicano, Marco Rubio, que andava meio apagado na campanha, conseguiu uma votação bastante expressiva, chegando bem próximo aos dois franco favoritos, Ted Cruz e Donald Trump–isto num estado difícil para Rubio devido ao conservadorismo assíduo dos eleitores Republicanos. Rubio, considerado um candidato mais moderado, jovem, cubano-americano, representa uma alternativa importante para as lideranças Republicanas, que buscam um tanto desesperadamente um candidato mais de centro que seja viável numa eleição presidencial. Neste sentido, os resultados de Iowa indicam a viabilidade da candidatura de Rubio, e de fato já há sinais de que as lideranças Republicanas estão se aglutinando em torno do candidato. Esse dado significaria a entrada de maiores e melhores recursos para montar uma organização eleitoral de longo prazo, mais bem estruturada e sólida. Donald Trump, liderando as pesquisas e incendiando a campanha, teve um resultado muito abaixo das expectativas, o que significa que tanto a falta de organização profissional como a capacidade de mobilização do eleitorado pesou e muito no resultado. A improvisação e a autossuficiência de Trump não são ferramentas para ganhar uma eleição longa, difícil, em múltiplas etapas.

O que acontece de agora em diante então?

Tirando a próxima primária da semana que vem, dia 9 de fevereiro em New Hampshire, um estado similar a Iowa, as próximas eleições são em estados mais demograficamente diversificados, no sul e no oeste, o que favorece e muito a candidatura de Hillary Clinton. A candidata tem apoio significativo das mulheres, dos negros e dos latinos que compõem a chamada “coligação de Obama”. A organização de sua campanha nesses estados também é impressionante—conta com milhares de voluntários, centros operacionais, e recursos de contato com os eleitores espalhados pelos Estados Unidos inteiro. O mesmo não pode ser dito de Bernie Sanders. Sua campanha só agora, com o impulso de Iowa, é que está gerando os recursos necessários para montar uma infraestrutura eleitoral nacional. Sua figura e sua mensagem não têm a mesma ressonância com o eleitorado de minorias, e sua campanha carece das vantagens operacionais e estruturais de Hillary Clinton.

Do lado Republicano, os próximos estados também não são favoráveis a Ted Cruz, que não deve repetir o resultado de Iowa. Donald Trump, mais uma vez devido à falta de organização e estrutura profissional de sua campanha, deve entrar na descendente–o que deixa os Republicanos com Marco Rubio. Rubio precisará vencer alguma eleição pós New Hampshire, no sul e/ou no oeste dos EUA, para consolidar-se como candidato de ponta do partido. Se Rubio conseguir bons resultados nas próximas eleições, surgirá como o candidato de preferência dos Republicanos.

Termino com mais uma aposta. Do lado Democrata, mantenho minha previsão de que Hillary Clinton será a candidata Democrata, e agora tenho uma novidade: Marco Rubio será o candidato Republicano.

Publicado em cultura, Estados Unidos, política | Tags , , , , , , , , , , | Publicar um comentário

Iowa Through the Looking Glass: Where Winners Lose and Losers Win

The First Contest of the American Presidential Race and its Non-Decisions

imagem 2016 iowa caucus resultsSo everything’s decided right? The first election of the American Presidential race, held in Iowa last Monday, February 1st, has placed Ted Cruz as the Republican frontrunner; on the Democratic side, Hillary Clinton’s half-point victory over her challenger, Democratic Socialist Bernie Sanders (I-VT), shows that she’s in serious trouble, isn’t that the case? Not so fast.

As explained in the last article, the American presidential race is a very long and somewhat complicated process; it’s similar to a chameleon in motion, with its numerous hues, changes in appearance, and rythms. The small, rural, midwestern state of Iowa is just the first step of a five-month long journey with 50 stops–that is, 50 very diverse states, each with their respective electorates and importance in the process.

Iowa is useful, however, for pointing out trends: which of the “emerging” candidates is viable, and which of the frontrunners is really weak. In this sense, the Iowa results are important, for it was in this first contest that the “emerging” candidate Obama revealed himself a true force in 2008 when he defeated the (once again) supposedly unbeatable frontrunner Hillary Clinton. The consensus at the time was that the size of Obama’s victory, in comparison to the scale of Hillary’s fiasco ( last in a three-way race), ignited the candidacy of he who would become the Democratic nominee, then President of the United States.

However, things get a bit more complicated than this. Here are some considerations on this first election, and how nothing is as it seems.

  1. Iowa is not demographically representative of the United States as a whole. It is a rural, predominantly white state. The new and emerging minority electorate, which includes women, African-Americans, Latinos, and Asians, the fastest growing voter coalition in the United States and decisive in Presidential elections, is disproportionately under-represented in Iowa. The three last categories make up less than 10% of the Iowa population, whereas at the national level that number jumps to nearly 40%.
  2. Iowa voters in both parties tend toward greater ideological rigor when compared to the rest of the country. Democrats tend to be more to the left and sympathetic to a greater role for government in socioeconomic affairs, as defended by Bernie Sanders; Republicans on their part are much more conservative, making up a numerous and powerful Evangelical base, the largest voting block for the Republican Party in Iowa.
  3. Ted Cruz and Bernie Sanders were, relatively speaking, in their backyards–which essentially means that they were favored to win. Archconservative Ted Cruz (who is against abortion even the case of rape and incest, against gay rights, and in favor of religious education in schools) counted on a good statewide organization and voter turnout operation among his Evangelical base. Bernie Sanders, too, was in sync with the more liberal urban and college-town electorate which makes up the Democratic base in the state. Like Ted Cruz, Sanders was able to build a solid ground game through the internet and social media as well as an extensive volunteer network in major voting centers. Both candidates also raised significant amounts of money to finance their campaigns. Despite these advantages, Cruz’s margin of victory was very low, and his Evangelical base apparently split between Donald Trump and Marco Rubio. With regard to Sanders, this was the State where he really could win more decisively, coming close to replicating Obama’s splash in 2008. The fact that he didn’t make it in one of the most fertile territories for his campaign this election cycle makes his trajectory that much more complicated going forward.
  4. Hillary Clinton’s razor thin half-point victory margin- in a state considered one of her worst in terms of its electorate composition – was actually quite positive. The Democratic candidate got more votes than any of her Republican counterparts, and became the first woman to win an Iowa caucus. On the Republican side, Marco Rubio, who had been somewhat dimmed in the campaign, had a very good showing; he came in close behind the two frontrunners, Ted Cruz and Donald Trump, in a state that is also not very favorable for his candidacy due to its ultra conservative electorate. Rubio, considered a more moderate candidate, young, Cuban-American, represents an important alternative for the Republican Establishment, which rather desperately seeks a more centrist candidacy that could be viable in a national election. In this sense, the Iowa results point to the viability of a Rubio candidacy, and there are growing signs that the Republican Establishment is beginning to coalesce around Rubio. This would mean an injection of significantly more financial and operational resources into his campaign, with the intent of building a long-term, competitive voter turnout operation on a national scale. The man who had dominated the polls and the news cycle, Donald Trump, disappointed in a major way. The lack of a campaign infrastructure, professionalism, and voter outreach seemed to have taken its toll, big time. Trump’s results show that an improvised, self-managed and self-financed campaign has its limited in the long, complex and multi-stage American election cycle.

So what happens now?

After next week’s primaries in New Hampshire, on February 9th ( a state very similar to Iowa) the next contests will be held in much more demographically diverse states, in the south and west. This should favor Hillary Clinton, the candidate with widespread, consolidated support from the women, African-Americans and Latinos that make up the Obama coalition. The Clinton campaign also has a formidable operation set up in all of these states, counting on thousands of volunteers, phone banks, and a huge voter turnout infrastructure. The same can not be said of Bernie Sanders. His campaign is only now, post-Iowa, beginning to generate the resources in order to build an effective national infrastructure. His person and message have yet to resonate with the emerging, minority electorate, and he lacks the structural and operational advantages of Clinton’s campaign.

On the Republican side, the next states are likewise unfavorable for Ted Cruz, who probably won’t repeat his Iowa results. Donald Trump, once again because of his campaign’s lack of operational and professional structure, should continue his descent, which leaves the Republicans with Marco Rubio. Rubio needs to win a Post-New Hampshire race, in the south and/or west, to consolidate himself as a top candidate. If Rubio can get some good results in the next elections, he will probably emerge as the Republicans’ preference for the nomination.

Let’s end with another bet. On the Democratic side, I maintain my prediction that Hillary Clinton will snag it, but now there’s a novelty: Marco Rubio will be the Republican nominee.

Publicado em culture, politics, United States | Tags , , , , , , , , , , , , | 3 Comentários

Go! The US Presidential Race Kicks Off–Who’ll Take It?

Understanding the Race in Five Basic Principles

blog Corrida Americana candidatosFinally, next Monday, February 1st, America’s Race for the Presidency officially begins. It’s the first stage of a long slog, in which voters will select the candidate from the Democratic and Republican Parties who will be their nominee for President of the United States. There are many interesting candidates on both sides. In the Democratic corner, former First Lady and Secretary of State Hillary Clinton faces self-proclaimed socialist, Senator Bernie Sanders (I-Vt); on the Republican Right, firebrand Donald Trump, real estate mogul and TV personality, leads the national polls, followed by Senators Ted Cruz (TX) and Marco Rubio (FL), as well as the former governor of Florida, Jeb Bush, and the current governor of New Jersey, Chris Christie, among others.

The selection process lasts several months, and is somewhat complicated to understand even for many Americans. How does the whole thing work, exactly? Who participates? Who’ll win and how? Here are a few basic principles:

  1. Candidate Selection: The Election Calendar

The selection process is national and takes place in every state. It follows a timetable that starts in February and ends in June. Each month, groups of states vote on different dates. The first state to vote this coming Monday, February 1st, is Iowa, followed by New Hampshire (the 9th), and Nevada and South Carolina in the second half of the month (different dates for the Republican and Democratic contests). March 1st is the date for Super Tuesday, in which the single, largest group of states casts their ballots. This block is made up of 12 states and a few territories from different regions in the United States. It includes states from the South (Texas, Georgia, Virginia), West and Midwest (Oklahoma, Wyoming, Minnesota) and Northeast (Massachusetts, Vermont), among others. The elections proceed until every state has voted, by mid June. Between July and the beginning of September, the Party Conventions take place . This is when the winners of these contests will be officially nominated for the Presidency of the United States by their respective parties.

blog corrida Bernie e Hillary

Vermont Senator Bernie Sanders, a self-proclaimed socialist, faces off with Hillary Clinton in a recent Democratic debate. Sanders has generated considerable buzz and is favored by younger voters and men; Clinton, however, is still the favorite due to name recognition, organization, and Party support.

2. A Democratic Process: Primaries and Caucuses

The elections occur as either Primaries or Caucuses, according to each state. Primaries are regular elections, organized and financed by the states themselves, in which voters walk into a voting booth, fill out a ballot, and vote in secrecy. Caucuses, on the other hand, are more complicated affairs that reflect an old-fashioned, more communal style of politics. In a Caucus, different groups of voters get together in public or private venues to debate a range of issues, from the Presidential candidates to local matters, such as the neighborhood sewage system, for example. Speeches and discussions can last for hours, and voting usually takes place openly, through a show of hands or even orally. Caucuses are financed and organized by political parties with the purpose of gaining more control over the nomination process and promoting debate on party-related subjects. The first contest in Iowa this Monday is in a caucus format, whereas the next election in New Hampshire is a primary.

It is important to highlight that the whole process is thoroughly democratic, open to ALL voters who wish to participate. In some cases, voters must be registered with the Party holding the election. Caucuses–which are more strictly party-controlled–have this requirement, as do many Primaries. In other cases, Primaries are open, which means that Independents and even voters registered with another Party may vote. It is not uncommon for Democrats to vote in open Republican Primaries and vice-versa. Unlike in Brazil, where candidates are chosen from within Party hierarchies, in the United States any citizen who wishes to may participate in the process.

3. Delegates and Super Delegates: Voter Representatives

A characteristic of the American process is the presence of delegates and Super Delegates nominated by the Party. In reality, the winning candidate is the one who accrues the most delegates and Super Delegates during the Primaries and Caucuses. What is this all about? Delegates are Party representatives–activists, public officials, among others–elected locally. Each Party has a total number of delegates distributed across the states according to population size.

In 2016, the Democratic Party will have a total of 4,764 delegates. A candidate will have to accrue 2,383 to win the nomination. In the first Iowa Caucus next Monday, 44 delegates will be contested; by contrast, on Super Tuesday, March 1st, the most delegates of any single election day will be at stake — 865.

blog corrida donald trump e ted cruz

Firebrand Donald Trump, who is personally financing and overseeing his own campaign, heads the Republican Race in a campaign unaffiliated with the Party Establishment. Texas Senator Ted Cruz (right), an arch-conservative and equally controversial candidate trails him in second place. A topsy-turvy race on the Republican side, confounding analysts and officials alike.

The candidate who wins the majority of votes accrues the most delegates in each state. Delegates can be allocated proportionately, according to the share of the vote, or on a “winner takes all” basis, in which all delegates from a particular state will be awarded to the winning candidate. The delegates, on their part, will pledge to support their candidate come the Party convention that will officially nominate the winner of the whole process.

Besides regular delegates, there are Super Delegates – Party luminaries such as governors, senators, former Cabinet officials, among others. Super Delegates are not pledged to support any particular candidate, and are not part of the Primary/Caucus process. Roughly 15% (or 713 officials) of the total delegates in the Democratic Party belong to this category.

The Republican Party, by contrast, does not have Super Delegates, and its number of regular delegates is far lower: a total of 2, 472, of which 1,237 are needed to clinch the nomination.

4. The Path to Victory: The Best Organization and Voter Turnout Operation

Unlike the Brazilian system, elections in the United States are not mandatory. This means that the greatest challenge for a candidate and his/her Party is to get voters to the polls on election day. The quality of a voter turnout operation can be the deciding factor in a winning race. It requires large investments in terms of money and infrastructure. An effective campaign will have resources to buy significant ad time on radio/TV, develop a sophisticated digital media campaign, and invest in a wide variety of catchy and informative print material. American political campaigns are run by professional marketing specialists and strategists. A successful campaign creates an organizational network reaching into each precinct; it relies on an army of volunteers responsible for identifying and contacting potential voters via internet, phone, and door-to-door. The whole process requires long-term planning and strategizing. A winning candidate will have the most effective campaign infrastructure and voter turnout apparatus; he/she will also be the one who garners the most support from the Party Establishment.

5. So who will win, finally?

The two main American political parties reflect a wide range of ideological hues. On the Democratic side, the spectrum extends center-left, going from the moderate positions and experience of Hillary Clinton to a uniquely American style of “socialism” reflected in Bernie Sanders (I-VT). Sanders’ “socialism” is a far cry from its European or even Latin American counterpart. There is no proposal to nationalize entire sectors of the American economy, or even the whole economy. It is simply a matter of the extent to which Government should play a role in the economy and society. Sanders believes the American health care system should be nationalized, much like the Canadian and many European systems. Clinton, on the other hand, believes in maintaining the private system intact, and tweaking it towards the goal of universal coverage — essentially, building on the reforms introduced by President Obama.

On the Republican side, the ideological spectrum ranges from center-right. The Party has essentially a pro-free market, laissez-faire platform, advocating for minimal Government intervention in economics. On the other hand, it is closely aligned with religious groups, especially Evangelicals, who advocate for greater restrictions on individual choice, essentially with regard to abortion and sexual issues.

The electoral process ends up benefitting centrist candidates who enjoy the support of their Party’s Establishment. As explained above, the winning candidate is also the one with the best resources, infrastructure and long-term game plan.

On the Democratic side, the candidate who fulfills these requisites is Hillary Clinton. Despite all of the media attention lavished on her opponent, Senator Sanders, Mrs. Clinton still has the luxury of losing BOTH Iowa AND New Hampshire, and still win the nomination.

blog corrida bush rubio

Two “moderate” Floridians, former governor Jeb Bush and Senator Marco Rubio. Rubio was once thought to be the best candidate to beat a Democrat. Republican voters aren’t buying it for now.

In contrast, the Republican Party is going through a sui generis moment. Its leading candidates, Donald Trump and Ted Cruz, lack many of the necessary requisites for victory. The Republican Establishment supports NEITHER of them, and they both lack the resources, infrastructure and long-term game plan necessary to win. Both candidates have also adopted positions that are far out of the mainstream: they have called for mass deportations of immigrants and discriminatory practices against Muslims. They deny Global Warming and have pledged to reduce or eliminate many social programs, including Health Care Reform. The so-called “moderate” candidates, Jeb Bush, Marco Rubio and Chris Christie, have so far failed to gain any traction among Republican voters. All of these factors have contributed to a fluid and unpredictable Republican Race, in which, once again, voter turnout will be the key.

My bet: Hillary Clinton will win the Democratic nomination; as for the Republicans, ???????

Publicado em culture, English, politics, United States, US Presidential Elections | Tags , , , , , , , , , | 3 Comentários

Começa a Corrida Presidencial Americana: Quem vai levar?

Entenda essa Parada em Cinco Princípios Básicos

blog Corrida Americana candidatos

Finalmente, nesta segunda-feira, dia 1 de fevereiro, no estado de Iowa, será dada a largada oficial da corrida presidencial americana. Trata-se da etapa de seleção dos candidatos à Presidência dos dois principais partidos americanos, o Democrata e o Republicano. Essa etapa inicial envolve diversos candidatos. Do lado Democrata, a ex-Primeira Dama e Secretária de Estado Hillary Clinton enfrenta o Senador socialista do estado de Vermont, Bernie Sanders. Do lado Republicano, está o incendiário Donald Trump, bilionário do setor imobiliário e celebridade de televisão, candidato que lidera as pesquisas com larga vantagem. Seus concorrentes são múltiplos, entre os principais estão os Senadores Ted Cruz (Texas) e Marco Rubio (Florida), Chris Christie (governador de Nova Jersey) e Jeb Bush (irmão do ex-Presidente George Bush e ex-governador da Flórida).

É um longo processo que dura alguns meses, um tanto complicado de entender até para os próprios americanos. Afinal, como funciona tudo isso? Quem participa? Quem vencerá e como? Seguem alguns princípios básicos:

  1. A Seleção dos Candidatos: O Calendário Eleitoral

O processo de seleção é nacional, ocorrendo em cada estado americano, e segue um calendário eleitoral que começa em fevereiro e termina em junho. A cada mês, vota um grupo de estados em datas diferentes. O primeiro estado a votar, nesta segunda, dia 1 de fevereiro, será Iowa, seguido por New Hampshire na semana seguinte (dia 9), e depois Nevada e Carolina do Sul na segunda quinzena do mês (datas diferentes para os Democratas e Republicanos). No dia 1 de Março acontece a Super Terça, envolvendo o maior bloco de estados de todo o processo: são 12 estados, mesclando alguns do sul (Texas, Georgia, e Virginia) do oeste (Oklahoma, Minnesota e Wyoming) e do nordeste (Massachusetts, Vermont), entre outros. As eleições continuam até todos os estados completarem sua votação, em meados de junho. Entre julho e o princípio de setembro, ocorrem as convenções dos partidos, onde os vencedores desse processo seletivo serão indicados como os candidatos oficiais à Presidência dos EUA.

blog corrida Bernie e Hillary

O Senador socialista do estado de Vermont, Bernie Sanders, em debate recente com Hillary Clinton. É o confronto em ação do Partido Democrata. Sanders tem muito apoio entre o eleitorado masculino e os jovens, mas Clinton continua a favorita pelo nome, organização e apoio partidário.

2. Um Processo Democrático: As “Primárias” e os “Caucuses”

As eleições ocorrem no formato de “primárias” ou “caucuses”, de acordo com cada estado. As primárias são eleições comuns, organizadas e financiadas pelos próprios estados, em que os eleitores comparecem às urnas e preenchem uma cédula, em votação secreta. Já os caucuses remetem a um tipo de política à moda antiga, comunitária, em que diversos grupos de eleitores se reúnem em lugares públicos ou privados para debater sobre as eleições, seus candidatos de preferência e outros assuntos relacionados. Os debates num caucus podem durar horas, e os assuntos discutidos abrangem desde a escolha do candidato à Presidência até questões comunitárias (como aprimorar o saneamento básico, por exemplo). Um caucus pode ocorrer na casa do vizinho ou no bar da esquina, e a votação é aberta: os eleitores podem votar levantando as mãos ou gritando suas preferências. A organização do caucus cabe ao próprio partido, com a intenção de controlar mais rigidamente o processo da escolha dos candidatos e de promover um debate sobre questões partidárias importantes. As primeiras eleições em Iowa nesta segunda serão em formato caucus; já as seguintes, em New Hampshire, são primárias.

É importante ressaltar que o processo é democrático, aberto a TODOS os eleitores que queiram participar. Em alguns casos, o eleitor precisa se afiliar ao partido. Os caucuses – mais estritamente controlados pelos partidos -, e algumas primárias, estabelecem tal exigência. Em outros casos, as primárias são abertas, significando que eleitores independentes ou mesmo eleitores afiliados a outro partido podem votar. Não é incomum que eleitores Democratas votem nas primárias Republicanas, e vice-versa. Ao contrário do Brasil, em que os candidatos de um partido são escolhidos pelas lideranças do próprio partido, nos EUA a escolha cabe àqueles cidadãos que desejam participar do processo.

blog corrida donald trump e ted cruz

O polêmico Donald Trump (esquerda), que dirige e banca sua própria campanha, numa candidatura fora das estruturas do Partido; e Ted Cruz, Senador pelo Texas, superconservador e também bastante polêmico. Duas candidaturas atípicas que estão transtornando o Partido Republicano.

3. Delegados e Super Delegados: Representantes dos Eleitores

Uma característica do processo americano é a presença de delegados e Super Delegados indicados pelo Partido. Na verdade, o candidato vencedor é aquele que acumula o maior número de delegados e Super Delegados durante as primárias e os caucuses. Do que se trata? Os delegados são representantes do partido – ativistas, oficiais, detentores de cargos públicos, entre outros -, eleitos nas suas localidades. Cada partido tem um número total de delegados, distribuídos de acordo com a população do estado.

Em 2016, o Partido Democrata terá um número total de 4,764 delegados, dos quais 2,383 são necessários para vencer a nomeação. Nos primeiros caucuses no estado de Iowa, nesta segunda-feira, serão disputados 44 delegados; já na Super Terça de 1 de março, são 865, o maior número de delegados disputados em um único dia.

O candidato com o maioria dos votos acumula a maior parte dos delegados em cada estado. Os delegados podem ser alocados proporcionalmente, de acordo com o percentual da votação, ou num esquema de “vencedor leva tudo”, em que todos os delegados do estado são alocados ao vencedor, independentemente da margem de vitória. Os delegados, por sua vez, estarão comprometidos a apoiar aquele candidato na convenção oficial do partido, que irá designar o vencedor da nomeação.

Além dos delegados comuns, existem também os Super Delegados. Estes são altos funcionários e oficiais do partido, como governadores, senadores, ex-ministros, deputados, etc. Os Super Delegados não fazem parte do processo eleitoral e são livres para apoiar o candidato de sua escolha. Cerca de 15% do total de delegados do Partido Democrata, ou 713, são Super Delegados.

O Partido Republicano, em contraponto, terá 2, 472 delegados totais, e deste número o candidato vencedor terá que acumular 1,237 para conquistar a candidatura. Não há Super Delegados no Partido Republicano.

4. Quesitos da Vitória: A Melhor Organização e a Mobilização do Eleitorado

É importante ressaltar que, ao contrário do Brasil, as eleições nos EUA não são obrigatórias. Isto significa que o grande desafio de um candidato, e de seu partido, é fazer com que o eleitorado compareça às urnas no dia da eleição. A capacidade de mobilização do eleitorado é o fator determinante da vitória em muitos casos. Trata-se de um processo que exige altos investimentos na criação de uma infraestrutura eleitoral extensa e eficiente. É preciso imprimir material informativo, comprar propaganda eleitoral na TV/Rádio (paga, nos EUA), e fazer uma campanha de mídia digital. O marketing político é de suprema importância nas eleições americanas, e as campanhas costumam contratar marqueteiros e estrategistas profissionais. As campanhas mais bem sucedidas criam uma organização em cada bairro, e contam com ativistas voluntários responsáveis por identificar e contatar os eleitores, seja por telefone, internet ou de porta em porta. É um processo que exige planejamento e estratégia de longo prazo. O candidato que tiver melhor posicionado nesses quesitos, além de contar com o apoio das lideranças de seu partido, tende a ser o candidato vencedor.

5. Então Quem Ganha Afinal?

Os dois partidos principais americanos refletem diversas matizes ideológicas, incorporando um eleitorado diversificado. Do lado Democrata, as matizes são de centro- esquerda, passando pela moderação e a experiência de Hillary Clinton e chegando à candidatura de Bernie Sanders (I-Vermont), socialista que defende a estatização do sistema de saúde americano (o “socialismo” de Sanders não chega a promover a estatização dos principais setores econômicos, mas apenas defende uma maior intervenção do Estado na economia e na sociedade). Do lado Republicano, as matizes são de centro-direita, em se tratando de um partido conservador que defende a minimização da participação do Estado na economia e na sociedade. Ao mesmo tempo, no entanto, alinha-se a grupos religiosos que são mais restritivos quanto às liberdades individuais (aborto, sexualidade).

O processo eleitoral acaba beneficiando os candidatos de posições moderadas que, geralmente, contam com o apoio das lideranças do Partido. Como foi explicado acima, o candidato vencedor também costuma ser aquele com os melhores recursos financeiros e a mais bem montada infraestrutura eleitoral.

Do lado Democrata, a candidata que preenche todos esses quesitos é Hillary Clinton. Apesar de toda a atenção recente sobre o seu concorrente, o Senador Bernie Sanders de Vermont, Hillary Clinton ainda pode se dar ao luxo de perder as primeiras eleições em Iowa E New Hampshire, e ainda assim vencer o processo como um todo.

blog corrida bush rubio

Dois “Moderados” da Flórida que não estão conseguindo apoio dos eleitores: o ex-governador Jeb Bush (esquerda, irmão do ex-Presidente George) e o Senador Marco Rubio. Pensava-se que Rubio seria um oponente perigoso para os Democratas, mas os eleitores Republicanos não estão comprando.

Em contraponto, o Partido Republicano vive um momento sui generis nesse sentido, pois seus candidatos de ponta, Donald Trump e Ted Cruz, carecem de muitos dos quesitos necessários à vitória. As lideranças Republicanas NÃO os apoiam, e falta a ambos uma infraestrutura eleitoral sólida e necessária à longa jornada do processo seletivo. Os dois candidatos também adotam posições consideradas extremistas em múltiplos sentidos: defendem a deportação em massa dos imigrantes e a implementação de políticas discriminatórias contra os muçulmanos. Também se recusam a aceitar as mudanças climáticas e pretendem reduzir de forma drástica os benefícios sociais, o que inclui desmantelar a Reforma de Saúde implementada pelo Presidente Obama. Os candidatos considerados “moderados”, e com melhores recursos, como Jeb Bush, Marco Rubio ou Chris Christie, não estão conseguindo o apoio dos eleitores, o que torna a corrida Republicana uma incógnita. O lado Republicano está fluido e imprevisível, e resta aguardar qual será a composição do eleitorado que comparecerá às urnas.

Minha aposta: Hillary Clinton vence a corrida Democrata mas, quanto aos Republicanos, ???????

 

Publicado em cultura, Estados Unidos, política, Portuguese | Tags , , , , , , , , | Publicar um comentário

A Woman worth 20 Dollars, Another worth 50 Reais

Women, Currency and History

blog mulher 20 dolaresnota 50 reais

 

What woman is worth 20 dollars? In the United States, there is currently a campaign to put a woman’s face on the 20 dollar bill. The internet-based campaign has been making the rounds across the country gathering names of historically important women; their search has narrowed down to 4 finalists for this first-time honor:

  1. The former first lady and social activist Eleanor Rooseveltwife of New Deal founder and World War II Commander-in-Chief Franklin Delano Roosevelt;
  2. Harriet Tubman (1822-1913), escaped slave and abolitionist; helped liberate thousands of other fugitives slaves in the 19th century and became a spy for the North during the Civil War (1861-1865);
  3. Rosa Parks (1913-2005), considered the “Mother” of the American Civil Rights Movement of the 50s; by refusing to give up her seat in the “whites only” area of a bus, Rosa triggered what became one of the biggest social movements of the 20 century; and finally,
  4. Wilma Mankiller (1945-2010), the first female Chief of the Cherokee Indian Nation; her administration was considered innovative, attracting social and economic investment and revitalization for the Cherokees.

In Brazil, who would be the woman to grace a 50 real note (the rough equivalent to a 20 dollar bill in the States)?

blog mulher victoria woodhull eua presidente 1872

Victoria Woodhull, the first female presidential candidate of the United States, in 1872

Women and money have not had the best of relationships throughout history. Currency is a symbol of the connection between economic and political power; to look at the faces on a nation’s currency is to observe the history of that country: the presidents, kings, aristocrats–overwhelmingly male (Brazil has placed a woman on its currency, the Goddess Marianne, symbol of Republicanism; we are, however, talking about flesh and blood women here..…). It’s possible that the currency format is one of the last areas untouched by the modern form of history-telling: one that is non-linear and incorporates ideas and concepts, as well as the “invisible”history of gender, racial and ethnic minorities. The heraldic history led by generals, revolutionaries, emperors and kings—one of military and political feats accomplished by austere, white men—may still be printed on currencies, but it is no longer the history of society.

blog mulher mary wollstonecraft

Mary Wollstonecraft, considered one of the West’s first feminist activists, and the cover to her feminist manifesto of 1792

To look at the list of American women “notables” is to observe the history of women in the Modern era of the West, when the fledgling feminist movement began taking shape during the 19th century. It is to observe how social movements have always been interlinked: the first feminists were also abolitionists, and later trade-unionists and activists in other movements for the rights of workers and different minority groups. These movements reflected the desires of the historically oppressed, whether by race, gender, ethnicity or class. Feminism, therefore, is no more than another branch of the Enlightenment, together with all of the other “isms” that emerged during the 18th and 19th centuries: abolitionism, environmentalism, trade unionism, etc.…It was the Enlightenment, after all, that gave birth to the concept of the “Rights of Man”,that is, the “natural rights” of all human beings. The philosophers and activists of the Enlightenment—those who organized the first major mass revolutions and who toppled entrenched monarchies—believed in the basic equality of all human beings and the innate rights to life and liberty.

blog mulher seneca falls 1848

The first Convention of the feminist movement in the United States, in Seneca Falls, NY, 1848.

blog mulher selo

A stamp celebrating three feminist pioneers; Elizabeth Stanton, on the left, is considered a founder of the American feminist movement.

For roughly three centuries, these simple and basic concepts of “Rights” have contributed to sabotage and eventually dismantle practically the entire structure of the traditional, agrarian societies of the West. They undermined the institutions of slavery and patriarchy; they contributed to the restructuring of the modern State and modern business into a model that takes into account the well-being and social and material safety of citizens. It is not surprising that the woman considered to be the pioneer of feminism, the Englishwoman Mary Wollstonecraft,wrote her revolutionary book in defense of women’s rights at the height of the Enlightenment: A Vindication of the Rights of Woman, published in 1792.

blog mulher fábrica londres

Women workers at a British munitions factory during World War I

blog mulher textil britânico século 18

An illustration of female textile workers at a mechanized textile factory in 17th century Great Britain; the early stages of the Industrial Revolution counting on female labor

If the Enlightenment formed the philosophical and ideological foundation of modern feminism, then industrialization provided its physical and material sustenance. The Industrial Revolution contributed to developing the institutional framework and physical space without which feminism could not have evolved. Without the expansion of communication and education systems, as well as urbanization, feminism as a movement would not have been possible. The feminist leaderships were made up of women with access to basic education, who published their writings in books and articles, and who organized in large urban centers. Another important factor was economic in nature: women provided an important labor source for the industrial process. The first stages of the Industrial Revolution—the industrialization of textiles—was based on female labor; the subsequent stages involving heavier industry also counted on a female workforce in the emerging factories and industries of the era. This trend was reinforced during periods of warfare, when women practically took over from men on the factory floor. The first great wave of global feminism—the struggle for suffrage—coincided with the climax of industrialization; it succeeded primarily after World War I, a moment when a significant female labor force had substituted men in industry. American women won the right to vote in 1920; Brazil conceded that right in 1932, with the emergence of the Estado Novo (New State), the country’s first national program of industrialization.

blog mulher primeira brasileira a votar

The first female voter in Brazil, also of Rio Grande do Norte, Celina Viana. She voted in 1928 in the small town of Mossoró, before suffrage became federal law in Brazil.

blog mulher primeira prefeita brasileira

The first female elected mayor of Brazil, Alzira Soriano; Alzira was elected in 1928 in the town of Lages, state of Rio Grande do Norte in the Brazilian northeast

These basic characteristics of feminism as a movement centered on an industrial urban economy continued throughout the 20th century, with developments in academia, the professions and the arts. With the right to vote behind them, women began focusing on other basic issues regarding their history and role in society. There is a double focus to this “new wave” of feminism, which covers the second half of the 20th century: to establish women’s value in history, and their value to themselves. Who were the great women of history, the common women–the activists, artists, fighters, scientists–pioneers in all areas of human endeavor? Who were the women that had been historically “invisible” up until that moment? Just as important, how did women really feel in their traditional roles as mother and wife, and with regards to themselves, to their bodies and their intimacy? It was during this period that issues such as birth control and abortion came to the forefront, forcing the establishment of new public policy related to reproductive rights and women’s bodies. In this regard, two books made history in the Post-World II period: The Second Sex (1949) by Simone de Beauvoir, and The Feminine Mystique (1963) by Betty Friedan. These were works written in societies that had attained a level of development that permitted such reflections, more existential in nature. Women could now vote; they had access to higher education and basic material comforts. Now what?

blog mulher primeira deputada

One of the major leaders of the Brazilian feminist movement in the 20s, Bertha Lutz, writes an editorial in a Brazilian newspaper.

blog mulher mulheres votando pela primeira vez

Women voting for the first time in Brazil in 1934.

Now, in 2015, we continue debating the same ideas; the same issues remain, and, incredibly, the same struggles. Which brings us back to our currency issue. Looking at the candidates for “cover” of the 20 dollar bill provides a history lesson. The American presidents and Founding Fathers whose faces adorn the US currency are household names, easily recognizable; however, one needs to pause and think, maybe do a “Google”, and find out who these women “candidates” for the 20 really are. In the second decade of the 21st century, the great women of history who fought for us all are still semi-known, or practically unknown.

In preparing for this article, I did an informal inquiry on social networks, asking several Brazilian women to name at least three ladies that they would put on a 50 real note. An interesting finding is that most suggested writers and poets: names such as Cecília Meirelles, Cora Coralina and, mainly, Clarisse Lispector were the most common. Some women suggested Ruth Cardoso (wife of President Fernando Henrique Cardoso)–like Eleanor Roosevelt, a former first lady, intellectual and social activist. Another important name was Nise da Silveira, a psychiatrist who started her career in the 20s and 30s and brought the work of Carl Jung to Brazil; Nise was a pioneer in the struggle to humanize the treatment of the mentally ill in Brazil; “treatment” at that time consisted of electric shock and abusive physical restraint and commitment policies. Sister Dulce, the nun healer who is practically considered a saint, was also mentioned. Her trajectory in Brazil was similar to that of Mother Theresa in the world. Two women mentioned the great Brazilian composer and first woman to conduct an orchestra, Chiquinha Gonzaga. Chiquinha’s work was considered the precursor of the Brazilian “Chorinho”, or the country’s version of the Blues. Still another name that came up was Maria da Penha, who championed a law in her name (passed in 2006) for tougher actions against domestic violence. A friend suggested several “firsts”,”including the first woman to fight in the Brazilian military: Maria Quiteria, who fought in the War of Independence of 1822–disguised as a man, by the way.

blog mulher nisia

Brazil’s first feminist: Nísia Floresta, of the northeastern state of Pernambuco. Nisia is Brazil’s Mary Wollstonecraft–the first woman to write a manifesto for women’s rights, in 1832.

For most Brazilians, many of these names would demand a few minutes on Google. Does anyone know who Nísia Floresta is? She was selected by the Brazilian newspaper O Globo as one of the most transformational women of Brazil. She was simply the Brazilian Mary Wollstonecraft: a pioneer of Brazilian feminism, writer and educator, who, out of nowhere in the rural state of Pernambuco, wrote the first feminist manifestos in the country, in 1832. What about Maria Lenk, great Brazilian swimmer, the first South-American woman to compete in the Olympics back in 1932?

There are certainly many important women not mentioned here, some of whom are featured in the illustrations that present the feminist movement in its beginnings in Brazil and the world. Determination and research will certainly reveal more brilliant, fighting, pioneering women, as yet still hidden in history. Were there brave slaves who fought against their condition? Who were the fugitive and abolitionist slaves of Brazil, the Brazilian Harriet Tubmans? And what of the role of elite women in the colonial and monarchical periods of Brazil? What about the contribution of indigenous and black women?

blog mulher maria quitéria

Maria Quitéria of Bahia, Brazil: the first woman to join the Brazilian military in the War of Independence of 1822. She had to disguise herself as a man.

Brazil is a country that industrialized belatedly and barely absorbed the ideas of the Enlightenment. Given this history, the list of formidable Brazilian women is impressive. Women make up almost half of the country’s work force, and have a greater level of higher education than men.The country elected its first female president ahead of the United States. But it is also a country with one of the highest rates of violence against women, and record numbers of plastic surgeries.It is a place where there is excessive value and exploration of the female body, and where women are still subjugated by society to a significant degree. The situation of Brazilian women is contradictory, the result of a complicated history that achieved development in fits and starts. Just like with many other aspects of the country, true Brazilian feminism has yet to be developed. It is up to us to develop it.

 

Publicado em culture, English, feminism, history, politics | Tags , , , , , , , , , | Publicar um comentário

Uma mulher de 20 Dólares, outra de 50 Reais

Mulher, moeda e história

blog mulher 20 dolares

nota 50 reais

 

Que mulher vale 20 dólares? Nos EUA, existe uma campanha em andamento na internet, com site próprio, para botar a face de uma mulher na nota de 20. O site fez uma enquete ao redor do país e conseguiu 4 finalistas para tamanha honra:

  1. A ex-primeira dama e ativista social Eleanor Roosevelt, (1884-1962), esposa do fundador do New Deal (Estado do Bem Estar Social) nos EUA e líder do país durante a Segunda Guerra Mundial, Franklin Delano Roosevelt;
  2. Harriet Tubman (1822-1913), escrava foragida e abolicionista; ajudou a libertar milhares de outros escravos foragidos no século 19 e virou espiã para o norte dos EUA durante a Guerra Civil entre Norte e Sul (1861-1865);
  3. Rosa Parks (1913-2005), considerada a “mãe” do movimento dos Direitos Civis dos Negros nos EUA nos anos 50; ao recusar a se sentar na área reservada aos negros num ônibus, Rosa desencadeou o que veio a ser um dos maiores movimentos sociais do século 20; e finalmente,
  4. Wilma Mankiller (1945-2010), a primeira chefe feminina da Nação indígena Cherokee; sua gestão foi considerada modelo de inovação, investimentos sociais e econômicos, e revitalização para os Cherokee.

Daí segue a seguinte pergunta: quem seriam as mulheres brasileiras selecionadas para uma nota de 50 reais ( o mais próximo em valor a 20 dólares)?

blog mulher victoria woodhull eua presidente 1872

Victoria Woodhall, a primeira candidata a presidência do EUA, em 1872.

Mulher e moeda são duas coisas que, ao longo da história, não tem tido relação muito favorável. A moeda é um símbolo da ligação entre os poderes econômico e político; olhar as faces impressas sobre as moedas de um país é observar a história política daquele país: os presidentes, reis, e aristocratas–ou seja, as figuras históricas, masculinas na sua maioria esmagadora (o Brasil de certa forma já tem uma mulher na sua moeda, a Deusa Marianne, que simboliza a forma Republicana de governo; estamos, no entanto, falando de mulheres em carne e osso….). Talvez a moeda seja um último reduto da história tradicionalista e heráldica–uma história comandada por generais, revolucionários, imperadores e reis; é a história de feitos militares e políticos, cujos representantes são homens brancos de face austera. A maneira moderna de contar a história é não-linear; emprega idéias e conceitos, e incorpora a história, por muito tempo “invisível”, das minorias raciais, étnicas e de gênero. Essa é a história que os americanos querem contar agora nas suas moedas.

blog mulher mary wollstonecraft

Mary Wollstonecraft, considerada das primeiras feministas do Ocidente, e a capa de seu manifesto pelos direitos da mulher, publicado em 1792.

Olhar a lista de mulheres “notáveis” norte-americanas é olhar a história da mulher na era moderna do Ocidente, quando o incipiente movimento feminista tomava forma ao longo do século 19. É observar como os movimentos sociais sempre foram entrelaçados: as primeiras feministas eram também abolicionistas, e, mais tarde, sindicalistas e ativistas sociais nos movimentos pelos direitos de outras minorias e do trabalho. Esse movimentos refletiam as aspirações daqueles que haviam sido oprimidos historicamente, não só em função de gênero, mas de raça, etnia e classe. Portanto, o feminismo nada mais é do que outro ramo do Iluminismo, assim como todos os outros “ismos” que nasceram nos séculos 18 e 19: o abolicionismo, o ambientalismo, o sindicalismo…etc. Foi com o Iluminismo que surgiu o conceito de “direitos do Homem”, isto é, os direitos naturais aos seres humanos. Os iluministas que fizeram as primeiras revoluções populares organizadas do mundo, e que destronaram a aristocracia, acreditavam na igualdade básica dos seres humanos e nos direitos inatos de cada um à vida e à liberdade.

blog mulher seneca falls 1848

A primeira convenção feminista dos EUA em Seneca Falls, Nova Iorque, 1848

blog mulher selo

Um selo homenageando três pioneiras feministas norte-americanas–à esquerda, Elizabeth Stanton, considerada fundadora do movimento feminista nos EUA.

Durante ao menos três séculos, esses conceitos básicos e simples de “direitos” têm contribuído para sabotar e eventualmente desmontar quase toda a estrutura das sociedades agrárias tradicionais do Ocidente. Minaram o escravagismo e o patriarcalismo; contribuíram para reestruturar o Estado moderno e a empresa moderna, atendendo às exigências básicas do bem estar social e da segurança física e material dos cidadãos. Não é por acaso que a pensadora considerada a pioneira do feminismo moderno, a inglesa Mary Wollstonecraft, escreveu seu livro revolucionário sobre os direitos da mulher em plena era iluminista: A Vindication of the Rights of Woman, publicado em 1792.

blog mulher fábrica londres

Mulheres trabalhando em fábrica de munição na Grã Bretanha durante a Primeira Guerra Mundial; o período pós-Guerra marcou importantes avanços para o sufrágio feminino.

blog mulher textil britânico século 18

Ilustração de fábrica têxtil mecanizada na Grã Bretanha do século 17: os primórdios da Revolução Industrial dependendo de trabalho feminino

Se o Iluminismo formou a base filosófica e ideológica do feminismo moderno, a industrialização o sustentou estrutural- e materialmente. A revolução industrial criou uma matriz institucional e um espaço físico sem os quais seria difícil o avanço do feminismo. Sem a expansão dos meios de comunicação, do sistema de educação e da urbanização, o feminismo como movimento não teria sido possível. As lideranças feministas eram formadas por mulheres que tinham acesso à educação básica, disseminavam seus escritos em livros e artigos publicados, e se organizavam nos grandes centros urbanos. Outro fator fundamental foi a própria questão econômica: a mulher formou base importante da mão de obra industrial. A primeira etapa da revolução industrial, a industrialização do setor têxtil, foi baseada em trabalho feminino; as seguintes etapas da industrialização pesada também contaram com trabalho feminino nas novas fábricas e indústrias que surgiam na época; essa tendência se acentuou em épocas de guerra, quando as mulheres praticamente substituíram os homens como operárias. A primeira grande onda do movimento feminista global, a luta pelo sufrágio, coincidiu com o ápice da industrialização; teve êxito principalmente no período pós-Primeira Guerra Mundial, momento em que uma parcela significativa da mão de obra feminina havia substituído os homens na matriz industrial. Nos Estados Unidos, as mulheres ganham o direito ao voto em 1920; no Brasil, em 1932, e coincide com a primeiro grande programa brasileiro de industrialização, o Estado Novo.

blog mulher primeira brasileira a votar

Celina Vianna, a primeira eleitora da história do Brasil; votou em 1928 em Mossoró, interior do RN, antes do sufrágio ser lei federal.

blog mulher primeira prefeita brasileira

Alzira Soriano, primeira prefeita eleita do Brasil na cidade de Lajes, RN, em 1928.

As características básicas do feminismo como movimento centrado na economia industrial urbana permaneceram ao longo do século 20, com desdobramentos subsequentes nos meios acadêmicos, profissionais e artísticos; com a conquista do direito ao voto, o movimento feminista passou a focar outras questões fundamentais da mulher na sociedade. A preocupação dessa “nova onda” do movimento feminista, que se desenvolve na segunda metade do século 20, é dupla: resgatar o valor da mulher na história, e seu valor diante de si mesma. Quem foram as grandes mulheres da história, as mulheres comuns–ativistas, artistas, guerreiras, cientistas, pioneiras em todas as esferas da atividade humana? Quem eram essas mulheres até então invisíveis da história? Mais importante, quais eram os sentimentos reais da mulher diante do seu papel na família, como mãe e esposa, e diante de si mesma, na relação com seu corpo e seu íntimo? Essa também foi a época em que questões como o aborto e o controle da natalidade vieram à tona e forçaram a criação de novas políticas públicas relacionadas à reprodução e ao corpo feminino. Nesse sentido, dois livros fizeram história no período pós-Segunda Guerra: O Segundo Sexo (1949) de Simone de Beauvoir, e A Mística Feminina (1963) de Betty Friedan. São duas obras escritas em sociedades que já tinham atingido um nível de desenvolvimento que permitia reflexões de caráter mais existencialista. A mulher agora já podia votar; tinha acesso à educação superior e a confortos materiais básicos. E agora?

blog mulher primeira deputada

Uma das grandes organizadoras do feminismo brasileiro nos anos 20, Bertha Lutz

blog mulher mulheres votando pela primeira vez

Mulheres votando no Brasil pela primeira vez em 1934.

Agora, 2015, continuamos debatendo essas mesmas idéias; permanecem os mesmos questionamentos e, por incrível que pareça, as mesmas lutas. O que nos remete à questão da moeda. Olhar a lista de candidatas à “capa” dos vinte dólares é uma aprendizagem histórica. Os presidentes norte-americanos cujos rostos cobrem as moedas são facilmente identificáveis; no entanto, é preciso um momento para pesquisar, apertar o “google”, e descobrir quem foram as mulheres “candidatas” à nota de 20. Na segunda década do século 21, as grandes mulheres da história que batalharam por nós continuam semi-desconhecidas ou praticamente desconhecidas.

Na formulação desse artigo, fiz uma enquete pelas redes sociais brasileiras, perguntando a varias mulheres que candidatas elas colocariam numa nota de 50 reais. O interessante é que a maioria nomeou escritoras e poetas: nomes como Cecília Meirelles, Cora Coralina e, principalmente, Clarisse Lispector foram muito comuns. Algumas indicaram Ruth Cardoso–que, assim como Eleanor Roosevelt, foi primeira dama, intelectual e ativista social. Outro nome importante foi o de Nise da Silveira, psiquiatra que iniciou a carreira nos anos 20 e 30 e trouxe a obra de Carl Jung para o Brasil; Nise foi pioneira na luta pela humanização do tratamento de doenças mentais no país, até então abordadas com eletro-choque, terríveis abusos físicos e internações sofridas. A Irmã Dulce, freira curandeira e considerada praticamente santa, com trajetória similar no Brasil à de Madre Teresa no mundo, também foi mencionada. Duas pessoas mencionaram a precursora do Chorinho, grande compositora da música brasileira e primeira regente feminina de uma orquestra, Chiquinha Gonzaga. Uma prima sugeriu Anne Nery, pioneira da enfermagem no Brasil; outra amiga lembrou várias “primeiras”, entre elas Maria Quitéria, a primeira mulher militar no Brasil que lutou na Guerra da Independência brasileira em 1822–disfarçada de homem, diga-se de passagem. Outro nome votado foi o de Maria da Penha, a mulher que foi baleada pelo marido e cujo nome está na lei de 2006 que impõe ações mais vigorosas no combate à violência contra a mulher.

blog mulher nisia

A Pernambucana Nísia Floresta, considerada a primeira feminista do Brasil, que escreveu manifestos pelos direitos da mulher em 1832.

Para boa parte dos brasileiros, muitos desses nomes mereceriam uns minutos no Google. Quem foi Nísia Floresta, por exemplo? Foi eleita pelo O Globo como uma das mulheres que mais transformaram o Brasil. Foi nada mais do que a Mary Wollstonecraft brasileira: pioneiríssima do feminismo brasileiro, escritora e educadora que, meio ao nada no estado rural de Pernambuco em 1832, escreveu os primeiros manifestos feministas brasileiros. E Maria Lenk? Grande nadadora brasileira, a primeira mulher sul-americana a participar de uma olimpíada em 1932.

Com certeza muitas mulheres importantíssimas não foram mencionadas aqui. Algumas estão nas ilustrações que mostram os primórdios do movimento feminista no Brasil e no mundo. Com ímpeto e pesquisa, certamente inúmeras mulheres brilhantes, guerreiras e pioneiras, ainda encobertas pela história, poderão ser reveladas. Houve escravas bravas que lutaram contra sua condição? Quem foram as escravas foragidas, abolicionistas do Brasil, as Harriet Tubmans brasileiras? E as mulheres coloniais e imperiais feministas? Onde está um papel maior para a mulher indígena e negra?

blog mulher maria quitéria

Maria Quitéria, Baiana, primeira mulher militar do Brasil; lutou na Guerra de Independência de 1822 disfarçada de homem

O Brasil, tardio na sua industrialização, um país que mal importou as idéias iluministas, consegue, contudo, ter uma lista respeitável de mulheres expoentes. O Brasil é um país onde a mulher forma quase metade da força de trabalho, e tem um nível de escolaridade maior do que os homens. É um país que teve uma mulher como presidente antes dos EUA. É também um país campeão em violência contra a mulher, e campeão em número de cirurgias plásticas; trata-se de um lugar onde a hiper-valorização do corpo e a subjugação da mulher na sociedade ainda são muito fortes. A situação da mulher brasileira é paradoxal, herança de uma história complicada, que cambaleou e tropeçou no seu desenvolvimento. Assim como muitos aspectos no país, o verdadeiro feminismo brasileiro ainda está por ser construído. Cabe a nós construi-lo.

 

 

Publicado em cultura, culture, feminismo, história, history, política, politics | Tags , , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

The Twilight of Petrobras and the Dawn of the Solar Age

The World is about to undergo a new energy Revolution

blog petroleo oil rig sunset

For over 60 years, the oil giant Petrobras has been the symbol of national grandeur and development in Brazil: the country’s dream of being a part of the developed world, on equal footing. The company was founded in 1953 by the father of Brazilian industrialization, Getulio Vargas; its founding motto was “The Oil is Ours”. The oil hadn’t always been ours, really. It had actually belonged to the great international oil conglomerates, such as Standard Oil (currently Exxon Mobile) and Shell. But ever since the start of the Estado Novo (or New State) in Brazil, in the 1930s, President Vargas had committed himself to nationalization of resources and state control of the industrial process. The model for the steel and mining sectors would also apply to oil: Brazil’s great natural resources would be controlled and managed by the Brazilian government, for the Brazilian people.

Throughout the second half of the 20th century, Petrobras was a rising star. The company pioneered research and development of deep water oil exploration, creating new technologies in the field. Gradually, oil production in Brazil began to rise significantly. The company’s climax came in the first decade of this century. In 2007, Petrobras discovered giant oil reserves along the Southern Brazilian coast, extending from the states of Santa Cantarina in the South to Espirito Santo in the Southeast. The reserves were located in deep waters, beneath layers of salt: this is why in Brazil they became known as the Pre-Sal (sal meaning salt in Portuguese). This discovery had the potential to turn Brazil into one of the world’s largest oil exporters before 2020. The oil sector in Brazil became a magnet for international expectations and investments.

pre sal

Heydey: Petrobras discovers one of the world’s largest oil reservoirs in 2007, the Pre-Sal

Fast-forward to the current moment, and observe this Brazilian star that lies like a giant, wounded animal, struck by a 1,000 cuts. According to the company’s balance sheet ,made public this week, Petrobras suffered approximately $ US 7 billion in losses last year—with one third of that amount, or roughly $ US 2 billion, resulting from corruption alone. Petrobras is currently embroiled in scandals and investigations; the company is undergoing massive layoffs and is suffering from misguided management decisions, quite a few made in bad faith. It is the target of international lawsuits and incessant carping by the foreign media.

The twilight of Petrobras coincides with the decline of the Oil era in general. In a certain way, it is the harbinger of new times to come. The world is losing its appetite for black gold, the cause of so many dramatic transformations and turmoil throughout history. Oil was the prime mover of the Industrial Revolution; it caused successive wars, financed terror organizations, generated the biggest and wealthiest businesses in the world, and propelled the United States into its Super Power status. However, 2015 marks a watershed moment for the global energy industry: it is the year when renewable energy, led by solar power, crossed historical thresholds in investments, viability, and competitiveness. The direction is clear: the world is heading decisively towards a new energy grid, at a faster pace than previously imagined. It is a new dawn, in multiple senses of the term.

Several factors support this observation:

  • In 2014, investments in renewables grew at an exponential rate, the second highest rate of growth after 2011. Solar energy was the fastest growing sector. There was a 17% increase in investment in renewables in general (which generated 9% of the world’s electricity); investment in solar energy alone grew nearly 30%, with China as the biggest investor. China invested $ US 83 billion in solar energy last year, an increase of 33% in comparison to previous years. This represents the largest growth in investment by a single country in one year. The runners-up in the race for Solar investment were the United States and Japan ( $US 38 billion and $US 35,7 billion, respectively).
  • The cost of solar energy has been plummeting in the last 5 years: since 2009, the cost of solar panels (PVs) has fallen by a whopping 75%, and the cost of electricity generated through solar energy has plunged 50% since 2010. Solar energy is now competitive with traditional fossil-based sources.. Example: in Dubai, an agreement signed between the Government and a Spanish consortium will build a solar plant that will produce energy at 5.85 US cents/kWh.
    blog petroleo imagem graft lab dubai

    Dubai: Building designed by Graft Lab using all-solar panels

    To match this result, a conventional plant would have to operate with the price below $US 50.00 per barrel of oil, over 20 years. In the United States there are forecasts that within the next decade, solar will be fully competitive with fossil fuels in the energy grid of the majority of states.

  • Solar energy is undergoing a technological revolution that will make it even more efficient and accessible. The new generation of solar panels will be made of cheaper and more malleable materials than the silicon that is currently used in production. These new materials will have greater capacity for absorption, storage and conversion. Example: current solar panels can convert up to 15% of the energy stored into electricity. The new materials, made of perovskite, could bump that number up to 50%; they are also much cheaper than silicone, which will contribute to lowering costs even further.
    blog petroleo imagem perovskite

    New technologies: solar cells made of Perovskite, a lighter, cheaper more malleable material, and much more energy-efficient

    Other technologies are also in the works, such as the embedding of solar cells in construction materials like glass and paint. Rayton Solar has an even more avant-guarde technology and is currently waiting for approval to market its product in the United States. Rayton claims that its technology could unleash an energy revolution in the America, and consequently, the world.

  • The world is seriously migrating to solar energy: even the oil-producing Arab states of the Gulf are beginning a transition to renewables. Countries that have previously resisted carbon emissions restrictions, such as Australia, are beginning to invest decisively in solar energy. The chronic instability in the Middle East has affected major oil producers like Iraq: the onslaught of terrorist groups such as Isis has blocked the flow of oil to dependent neighboring countries—Egypt, Jordan, and Turkey among them. These oil-dependent countries are also making significant investments in solar energy and other renewables.
  • OPEC (the Organization of Petroleum Producing Countries) has unintentionally helped to spur renewable energy. The organization has been hit with competition from Shale oil in the US, forcing it to lower prices in order to compete. The plunge in oil prices—combined with the faster rate and cheaper costs of Shale extraction—has rendered other forms of oil exploration, mainly deepwater, practically inviable. This trend has had a significant impact on investments in deepwater exploration, which in turn has affected the Brazilian Pre-Sal reserves. Currently, there is neither the will nor the appetite for the massive capital and decades-long investments required for deepwater exploration. This combination of factors has favored renewables, making them even more competitive. As the cost of renewable energy—mainly solar–continues to fall, investments could flow away from the oil sector at an even faster pace.
blog petroleo imagem abu dhabi

The largest solar energy farm in the world, in the deserts of Abu Dhabi

  • Climate change is palpable and is frightening even hard-pressed skeptics. Current forecasts predict that this decade will be the hottest recorded in History. Ever increasing environmental catastrophes, resulting from extreme weather, are causing general alarm. The recent draught in Southeastern Brazil—the most intense in a century– resulted in agricultural destruction and severe energy shortages. Brazil needs to urgently rethink its energy grid,which is based on oil, ethanol and large-scale hydro- and thermo-electric power plants; the latter are expensive, cumbersome to manage, time-consuming in their construction, and destructive to environmental surroundings. There is a need to follow international trends and increase investments significantly in less grandiose renewables: the country with abundant, year-round sun should follow the examples of countries affected with long, dark winters, such as Germany. That country’s energy grid is made up of 50% solar energy. The upcoming climate conference in Paris this year should clarify the commitment of Brazil and other nations to the reduction of carbon emissions and the adoption of clean energy.
blog petroleo imagem joão pessoa

Today’s technology: Solar panels on the roof top of a hotel in the town of João Pessoa, Paraíba, Brazil

blog petroleo imagem aeronave

Tomorrow’s technology: a concept model of a solar-powered aircraft

 

 

 

 

 

 

Of course this shining scenario for solar energy and other renewables is not linear. The price of oil could bounce back; shale extraction—the main cause of falling oil prices– is limited and volatile. However, it is difficult at this stage to imagine oil returning to its golden era as the world’s prime energy source. Even the most interested parties do not expect a return to $US 100,00 a barrel. Oil is like a dying star that inflates significantly and shines more intensely before it begins to contract, and eventually collapse. For the first decade and a half of this century oil was that star—it inflated and shined brightly, only to begin its contraction and head towards eventual collapse. As Karl Marx used to say, every situation contains within itself its own contradiction. The energy model based on oil is experiencing its own contradictions. Oil’s night is giving way to a new age drenched in sunlight.

Publicado em energy, English, environment, history | Tags , , , , , , , | Publicar um comentário

O Crepúsculo da Petrobrás e o Amanhecer da Era Solar

O Mundo está prestes a nova revolução energética

blog petroleo oil rig sunset

Por mais de 60 anos, a Petrobrás foi o símbolo nacional de grandeza e desenvolvimento: o sonho brasileiro de integrar o mundo desenvolvido em situação de paridade. Fundada em 1953 pelo pai da industrialização brasileira, Getúlio Vargas, teve como lema de seu batizado, “O Petróleo é Nosso”. O petróleo nem sempre tinha sido nosso. Na verdade pertencia aos grandes conglomerados internacionais como Standard Oil (atual Exxon Mobile) e Shell. Desde o Estado Novo na década de 30, o Presidente Vargas tinha se comprometido com a industrialização e o desenvolvimento do Brasil impulsionados e comandados pelo Estado nacional: o que valia para a siderurgia e para a mineiração também cabia ao petróleo. As riquezas brasileiras seriam administrada pelo Estado brasileiro, para o povo brasileiro.

Ao longo da segunda metade do século 20, a Petrobrás foi uma estrela em ascensão. Foi pioneira na pesquisa e no desenvolvimento da exploração do petróleo em águas profundas, criando tecnologia própria. Gradualmente, a produção de petróleo no Brasil foi crescendo de maneira importante. O apogeu da empresa veio na primeira década do século 21. Em 2007, a Petrobrás descobriu enormes reservatórios de petróleo ao longo da costa sul brasileira, estendendo-se desde Santa Catarina até o Espírito Santo. Os reservatórios, localizados em águas profundas abaixo de camadas de sal, ficou conhecido como o Pré-Sal. Tinha o potencial de tornar o Brasil um dos maiores exportadores de petróleo do mundo antes de 2020. O setor de petróleo brasileiro atraía investimentos e expectativas do mundo todo.

pre sal

Tempos áureos: Mapa do Pré-Sal, um dos maiores reservatórios de petróleo do mundo, descoberto pela Petrobrás em 2007

Pulemos para o momento atual, e observemos esta expoente brasileira que jaz como um animal gigante, quase moribundo, ferido por 1,000 cortes. Segundo os resultados divulgados recentemente pela empresa, suas perdas no ano passado seriam de R$ 21 bilhões; quase um terço desse valor, ou seja, pouco mais mais de $R 6 bilhões, é resultado direto da corrupção. A Petrobrás embrulha-se em escândalos e investigações, demite em cascata, sofre as consequências de decisões tomadas de forma equivocada ou de má fé; no exterior, é alvo de ações judiciais e de ataques incessantes da imprensa estrangeira.

O crepúsculo da Petrobrás coincide com o declínio da era do petróleo no geral; de certa forma representa um presságio dos novos tempos por vir. O mundo está perdendo seu apetite pelo ouro negro, que reflete tantas transformações e convulsões históricas: alimento energético da industrialização, motivo de sucessivas guerras, fonte de financiamento para o terror internacional, propulsor das maiores e mais poderosas empresas do mundo, meio de acensão dos Estados Unidos como grande potência mundial. O ano de 2015 marca uma inflexão para a matriz energética global; trata-se do momento em que as energias renováveis, lideradas pela energia solar, cruzaram um limiar de investimentos, viabilidade e competitividade histórico. O vetor está claro: o mundo caminha de forma decisiva para nova matriz energética, a ritmo mais veloz do que se imaginava. É um novo amanhecer, em múltiplos sentidos da palavra.

Vários fatores apoiam essa constatação:

  • O ano de 2014 marcou crescimento explosivo e ímpar nos investimentos nas energias renováveis, o segundo maior ano de crescimento depois de 2011. O setor mais beneficiado foi o da energia solar. Entre os investimentos gerais nas energias renováveis, que aumentaram em 17% (gerando cerca de 9% da eletricidade mundial) o setor solar foi o que mais cresceu: deu um salto de quase 30% a nível global, tendo a China como principal investidora. A China investiu cerca de $ US 83 bilhões na energia solar no ano passado, o que representa um aumento de 33% em relação a anos anteriores: o maior investimento jamais feito por um único país em um ano. Em seguida vieram os Estados Unidos e Japão (com $US 38 bilhões e $US 35,7 bilhões, respectivamente).
  • O custo da energia solar vem caindo vertiginosamente ao longo dos últimos 5 anos: desde 2009, o custo dos painéis solares baixou em 75%, e o custo da eletricidade gerada por estes baixou em 50% desde 2010. A energia solar já está competitiva com fontes tradicionais de base fóssil. Exemplo: em Dubai, um acordo firmado entre o governo e um consórcio espanhol propõe a construção de uma planta solar que irá produzir energia a 5,85 centavos americanos/kWh.
    blog petroleo imagem graft lab dubai

    Dubai: Edifício projetado pela empresa Graft Lab, todo com painéis solares

    Para igualar esse resultado, uma planta convencional teria que operar com o preço abaixo de $US 50,00 por barril de petróleo, ao longo de 20 anos. Nos Estados Unidos, existem previsões de que, dentro de uma década, a energia solar terá paridade competiviva com as energias fósseis na maioria dos estados americanos.

  • O energia solar está passando por uma revolução tecnológica que a tornará ainda mais eficiente e acessível. A nova geração de painéis solares será de materiais mais baratos e maleáveis do que o silicone utilizado na produção atual. Os novos materiais têm maior capacidade de absorção, armazenamento e conversão de energia. Exemplo: os painéis tradicionais de silicone convertem 15% da energia que armazenam em energia elétrica. Os novos materiais—feitos de perovskita—são muito mais baratos do que o silicone, e podem chegar a converter até 50% da energia solar armazenada em energia elétrica.
    blog petroleo imagem perovskite

    Nova célula solar maleável e transparente de Perovskita: tecnologia mais eficiente e mais barata

    As novas tecnologias também podem embutir os conversores solares em materiais de construção, como vidros e tintas. A empresa Rayton Solar está aguardando autorização para introduzir seus novos painéis no mercado americano. A empresa alega que sua nova tecnologia pode, em breve, revolucionar a matriz energética americana.

  • O mundo está aderindo seriamente a energia solar: até os países árabes do golfo, produtores de petróleo, estão iniciando uma transição às energias renováveis; países que têm demonstrado resistência aos acordos ambientalistas, como a Austrália, estão investindo de forma supreendente na energia solar. A instabilidade crônica afeta alguns dos principais países produtores de petróleo, entre eles o Iraque: os avanços de grupos terroristas como o Isis tem bloqueado o fornecimento de petróleo a países vizinhos dependentes—o Egito, a Jordânia e a Turquia, entre outros. Esses países não-produtores de petróleo do Oriente Médio também estão começando a investir de forma significativa na energia solar e em outras renováveis.
  • A OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo) tem auxiliado, de forma não-intencional, a evolução das energias renováveis. A organização tem sido forçada a baixar o preço do barril do petróleo para enfrentar a competição do petróleo extraído do xisto, nos EUA. O preço baixo do petróleo, combinado com a tecnologia mais barata e rápida da extração do xisto, tem contribuído para inviabilizar—a nível de tempo e de custo—a extração de petróleo das águas profundas. Isso tem impactado de forma significativa os investimentos em projetos como o Pré-Sal no Brasil. No momento atual, não existe o ímpeto nem a vontade de investir bilhões de dólares e anos a fio na extração do petróleo das águas profundas. Isso forma conjuntura favorável às energias renováveis a nível de custo e competitividade, atraindo o interesse e os investimentos do setor de petróleo para o de energia limpa.
blog petroleo imagem abu dhabi

A maior planta de energia solar do mundo no deserto de Abu Dhabi

  • As mudanças climáticas palpáveis estão assustando até os céticos. Há previsões que a década atual será a mais quente já registrada na história. As crescentes catástrofes ambientais têm provocado alarme generalizado. A recente seca histórica que afetou o sudeste brasileiro gerou severas crises agrícola e energética; existe urgência de se repensar a matriz energética brasileira, baseada no etanol, no petróleo e nos projetos de longa duração, caros e destrutivos das termo- e hidroelétricas. É preciso seguir as tendências mundiais e aumentar de maneira exponencial os investimentos nas energias renováveis de menor escala e estrutura decentralizada. O país do sol precisa investir mais na energia solar, a exemplo de países que passam boa parte do tempo sob invernos escuros. Na Alemanha, por exemplo, 50% da matriz energética é de energia solar. A Conferência climática de Paris desse ano dará oportunidade ao Brasil e a outros países de mostrar o comprometimento com a redução dos gases carbônicos e a adoção crescente das energias limpas.

 

blog petroleo imagem joão pessoa

Tecnologia atual: Painéis solares no telhado de um hotel em João Pessoa, Paraíba

blog petroleo imagem aeronave

E o futuro: Modelo conceitual de uma aeronave movida a energia solar

É claro que o cenário não é linear. O preço do petróleo pode voltar a subir; a extração do xisto—principal causa da oferta generosa e queda de preços do petróleo no cenário atual– é limitada e volatil. Dificilmente, porem, o petróleo voltará a sua época áurea, seu mais recente apogeu da primeira década deste século: nem os analistas mais otimistas esperam um regresso a $US 100 por barril. O petróleo está como uma super estrela, que expande de forma exageradamente brilhante e exuberante antes de iniciar sua contração, rumo ao eventual colapso. O petróleo também expandiu e brilhou na primeira década e pouco deste século, só para iniciar sua contração, em direção ao colapso. Assim como diz o velho Marx, toda situação contém dentro de si sua contradição. O modelo energético do petróleo vive suas contradições. Veremos em breve o novo amanhecer da Era Solar.

 

 

Publicado em energia, energy, environment, meio ambiente, politics, Portuguese | Tags , , , , , , | Publicar um comentário

Havana e o Choro dos Ideólogos

It’s the Economy, Stupid

cuba charge blog

O ano passado (2014) marcou os 50 anos do Golpe Militar no Brasil; também foi o ano em que os Estados Unidos anunciaram reaproximação com Cuba, após 50 anos de boicote político e econômico norte-americano contra a nação cubana. O encontro amistoso entre os Presidentes Barack Obama e Raul Castro na Cúpula do Panamá na semana passada, e a remoção de Cuba da lista dos países patrocinadores do terror, marcam nova etapa nas relações EUA-Cuba-América Latina. Após meio século, o ciclo da Guerra Fria está se encerrando, oficialmente.

Cuba, o primeiro país comunista das Américas, o único satélite soviético da região, estrela guia da esquerda latino-americana, agora se abre aos negócios; almeja os dólares, os investimentos e a tecnologia de seu velho antagonista e vizinho ianque. “Trata-se de momento único na economia cubana…se a reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba não acontecer…então serão os Estados Unidos que ficarão de fora do processo de modernização de Cuba…. diz Alicia Barcena, Secretária Executiva da Cepal (Commissão Econômica para a América Latina e o Caribe).

A Secretária referia-se à “Bolsa de Oportunidades” para investimento estrangeiro, iniciativa proposta pelo governo de Raul Castro no ano passado. A “Bolsa” propõe 246 projetos, principalmente nos setores de telecomunicações, agricultura, energia e turismo. O objetivo é atrair $ 8 bilhões em investimentos dos países participantes. A economia cubana deteriora; tem uma das menores taxas de crescimento da região, e é dependente de energia e agricultura importadas. Cuba necessita urgentemente de dinheiro e investimentos externos. Os Estados Unidos querem um filão, e Cuba está disposta a oferece-lo.

carros cubanos imagem

Os famosa “indústria de automóveis” cubana, com carros das décadas de 50 e 60–sonho para nostálgicos e colecionadores de antiguidades…

A importância da reaproximação entre os EUA e Cuba, e das propostas de modernização do governo de Raul Castro, é estrondosa, não só para os partidos diretamente envolvidos, mas para toda a região da América Latina, cujo os maiores países–sendo o Brasil o maior—são atualmente governados por partidos de esquerda-populista. A Guerra Fria, mesmo após o colapso da União Soviética e do suposto fim do comunismo, continua a influenciar a região; seus fantasmas encontram-se presentes na história, na ideologia, e nas ações de boa parte das lideranças latino-americanas. O antiamericanismo, o apoio à Cuba, e a utilização do embargo norte-americano contra Cuba como instrumento de resistência aos Estados Unidos têm caracterizado a política externa do Brasil e de alguns de seus vizinhos, entre eles Argentina, Venezuela e Bolívia.

Nos Estados Unidos, a Guerra Fria ainda vive entre a Direita política, e no seu representante, o Partido Republicano. A ação de Obama é de caráter executivo e limitado; não pode levantar o embargo por completo. Tal ação caberia ao Congresso, dominado pelos Republicanos, que já se posicionou contra a remoção do embargo. Para os Republicanos, Cuba ainda é uma nação comunista que viola os direitos humanos e persegue dissidentes políticos. A geração mais velha de cubano-americanos, refugiados do Regime de Fidel Castro, repudia qualquer acordo com Cuba; essa geração compõe bloco importante de apoio ao Partido Republicano. De fato, o Senador Republicano Marco Rubio, filho de refugiados cubanos e candidato à Presidência dos Estados Unidos em 2016, reflete a posição de seu partido quando se posiciona contra a abertura de embaixada norte-americana em Cuba; ele critica a “acomodação” (appeasement) a ditadores em situações onde os Estados Unidos fazem concessões mas não recebem nada em troca.

doutrina monroe imagem

A Doutrina Monroe–O Tio Sam protege o seu território: Américas para os americanos!

Do ponto de vista dos Estados Unidos, a Revolução Cubana de 1958 foi uma mancha vermelha numa região que sempre foi considerada como área de domínio norte-americano. Desde 1823, a Doutrina Monroe expressou o interesse dos Estados Unidos em manter as Américas como zona de influência, e de resistir a qualquer interferência das potências europeias na região. O fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, marcou o realinhamento geopolítico do mundo e sua divisão entre os dois polos norte-americano e soviético. Era o início da Guerra Fria, e a nova potência mundial do Ocidente, os Estados Unidos, pretendia utilizar de todas as ferramentas a sua disposição no exercício do poder: o soft power, representado na diplomacia e na tecnologia, na indústria, cultura, música e entretenimento; e o hard power, o poder de coerção, envolvendo a força militar. A América Latina, mais do que nunca, consolidava-se como zona de influência absoluta norte-americana.

Nesse contexto, do ponto de vista de uma potência mundial que via no combate à ameaça comunista a raison d’etre de sua política externa, a Revolução esquerdista de Cuba—uma pequena ilha a 300 km da Florida—representou um grande choque histórico à alma norte-americana. Não é por acaso que Cuba tornou-se o epicentro da fisura entre os blocos Leste-Oeste nas Américas. Em 1962, Cuba foi o palco de uma das mais importantes e dramáticas confrontações da história entre os Estados Unidos e a União Soviética.

mísseis soviéticos em cuba

Fotos de mísseis soviéticos de médio alcance em bases cubanas, provas de más intenções…

A instalação de mísseis soviéticos de médio alcance em Cuba—a chamada Crise dos Mísseis Cubanos—quase desencadiou a Terceira Guerra Mundial. A Crise, que teve como protagonistas os Presidentes Kennedy (EUA) e Kruschev (União Soviética), foi resolvida quando os soviéticos aceitaram remover os mísseis em troca da garantia por parte dos norte-americanos que jamais invadiriam Cuba nem tentariam derrubar o Regime de Castro. O significado disso foi que um satélite comunista continuou intacto ao lado dos Estados Unidos, lembrando à crescente esquerda latino-americana que o gigante norte-americano podia ser derrotado, e que o estabelecimento de regime socialista na região era possível. Esse evento traumático acirrou ainda mais a luta contra o comunismo na região; nas décadas seguintes, os Estados Unidos apoiaram golpes militares nas Américas que pretendiam conter a ameaça comunista.

É nesse contexto que ocorre o Golpe Militar de 1964 no Brasil. O Brasil havia se alinhado à política externa norte-americana desde as décadas de 30 e 40, com a aliança entre os Presidentes Getulio Vargas e Franklin Roosevelt. A década de 50, período do governo de Juscelino Kubitchek, marcou momento de forte influência dos Estados Unidos na cultura, indústria e setor financeiro do Brasil. Não obstante, com a Presidência de João Goulart em 1961, iniciou-se período de contestação à influência norte-americana.

O Presidente João Goulart era tido como homem de esquerda, alinhado a sindicalistas e camponeses, e comprometido com a expansão dos direitos trabalhistas e a Reforma Agrária, até então inexistente no Brasil. Favorecia regulamentação sobre as remessas de lucro de empresas estrangeiras ao exterior, e pregava a nacionalização da setores estratégicos da economia, entre eles o petróleo. Uma de suas primeiras viagens ao exterior foi à China comunista. Além de todos esses fatores, a administração do país encontrava-se caótica, caracterizada por inflação explosiva, contração econômica, e profunda instabilidade social.

golpe militar 2 imagem

Tanques invadem as ruas brasileiras durante o Golpe Militar de 1964

golpe militar imagem

João Goulart adota medidas radicais: quer desapropriar terras, rescindir contratos refinarias de petróleo e concentração de poder no Executivo

Os militares e as elites nacionais não hesitaram, e com cobertura norte-americana, derrubaram João Goulart e estabeleceram ditadura militar. O que sucedeu foram duas décadas sofridas e contenciosas, marcadas por segredos, perseguições e tortura; não obstante, foi também período de extraordinário crescimento econômico, expansão industrial e urbana. A Esquerda brasileira, polo de resistência à Ditadura, foi contida e controlada em setores específicos, principalmente os dos intelectuais, artistas e sindicalistas. Inúmeros simpatizantes e ativistas foram presos, torturados ou exilados. As três principais presidências do período atual de democracia plena, que data desde o princípio dos anos 90, são todas fruto dessa Esquerda perseguida: o Presidente Fernando Henrique Cardoso, intelectual exilado no Chile de Salvador Allende nos anos 70; o Presidente Luis Ignácio Lula da Silva, principal líder sindicalista nessa década; e a atual Presidente Dilma Rousseff, militante de esquerda e envolvida em sequestros, presa e torturada pelo Regime Militar, também nos anos 70. Tanto Lula como Dilma Rousseff integram o que foi um dos principais partidos de resistência à ditadura, o PT.

dilma lula fhc blog cuba

Os três recentes Presidente brasileiros perseguidos pela Ditadura militar: (de esquerda para direita): Lula, Dilma e Fernando Henrique Cardoso

O PT de Lula e Dilma tem seguido elementos do manual tradicional da esquerda populista: a expansão do aparato estatal e a dependência do setor público como veículo de empreguismo e acensão social; a expansão de programas assistencialistas como Bolsa Família; e a hiper-regulamentação (alguns diriam má gestão) do setor privado em áreas estratégicas como as de infraestrutura, energia elétrica, transporte e petróleo. Nesse ponto as políticas petistas pouco diferem do que vem sendo implementado em outros países latino-americanos—vêm à mente Argentina e Venezuela. Os resultados têm sido sofridos. A economia brasileira passa por processo de desindustrialização, desinvestimento, contração econômica significativa, inflação perigosamente alta, e crises de energia e infraestrutura. A Argentina e a Venezuela já enfrentam processos de declínio ainda maiores: a inflação argentina já passa de 40%, ao passo que na Venezuela já existe política de racionamento de bens de consumo e produtos básicos, entre outros problemas.

raul fidel e che

Che, e os irmãos Raul e Fidel Castro (de esquerda para a direita), em tempos revolucionários

Obama e Raul

Obama e Raul Castro, em novos tempos revolucionários

O que nos remete à Cuba e sua nova etapa de vida. Havana se transformou num ponto de encontro onde Esquerda e Direita choram suas mágoas. O velho epicentro latino-americano da Guerra Fria indica o caminho novo do pragmatismo. O investimento privado não é tabu; trata-se de necessidade. O Estado pode entrar em parceria produtiva com a empresa privada. Os direitistas protestam, “Mas ainda são comunistas—o Estado controla tudo!; os esquerdistas gritam, “Vão perder o controle, serão controlados pelos imperialistas!”. De fato, está tudo só começando. Mas os vetores estão claros. A direção é de abertura econômica e crescimento. E não esqueçamos que uma nova geração de líderes cubanos, nascida após a Guerra Fria, aguarda seu momento. Enquanto Brasil e Cia. repudiam os ianques e seus investimentos, os Cubanos os recebem com esperança e expectativas sóbrias.

Publicado em history, politics | Tags , , , , , , , , , , , , , , , , | 2 Comentários

Harvard e UFRJ: Um Conto de duas Elites

Reflexões sobre Ensino Superior no Brasil e nos EUA

blog ensino superior ufrj imagem blog ensino harvard elite imagem

Recentemente vi artigo comparando educação superior no Brasil e nos Estados Unidos. O artigo era de um site conceituado, The Atlantic, e a essência da comparação era esta: no Brasil, as universidades gratuitas, isto é, públicas, são para as elites; esse caráter elitista é parecido com o que está acontecendo nos Estados Unidos, em que o custo da educação universitária estaria limitando às classes mais abastadas o acesso à universidade, acentuando disparidades de classe na sociedade como um todo. O artigo aponta as melhorias que vêm ocorrendo, principalmente no que diz respeito à expansão do ensino superior privado no Brasil e às políticas de ação afirmativa. Mas a conclusão é que em ambos os países, a educação superior no atual momento contribui para uma sociedade excludente.

Muitas abordagens da mídia estrangeira sobre o Brasil são validas e cobrem assuntos pontuais e importantes. No entanto, observa-se em muitos casos certa ausência de contextualização histórica e cultural, essenciais para a compreensão de alguns assuntos, principalmente em se tratando de comparações com países desenvolvidos. Quanto ao Brasil, nada é o que parece, tudo é sempre mais complexo do que aparenta a olho nu; conceitos como “público” e “elite” diferem muito dos seus equivalentes nos Estados Unidos; a história e a evolução do ensino superior em ambos os países não poderiam ser mais diferentes:

  • Em primeiro lugar, o ensino superior no Brasil sempre foi de caráter público, na sua maior parte; esta é a tradição. Num país onde o desenvolvimento foi impulsionado pelo Estado, o setor de educação não poderia ter sido diferente. O Brasil é um país em que “público” e “elite” são praticamente geminados, pois o Estado sempre foi o gerador de empregos, de posições de status—veículo de prestígio e acensão social. As “elites” brasileiras foram formadas, em grande parte, por funcionários públicos: os oficiais que integravam o hierarquia estatal do Império, da República, do Estado Novo, e de sucessivos governos.
  • Em segundo lugar, o Brasil chegou muito tardiamente ao ensino superior. As primeiras faculdades foram fundadas pelo Império Luso-brasileiro somente em meados do século 19, na Bahia e no Rio de Janeiro. Não eram propriamente universidades, mas faculdades de caráter especializado em medicina, engenharia, e direito. Eram pequenas e espalhadas por regiões seletas do país no nordeste, sudeste e sul, principalmente. A primeira grande universidade brasileira, que integrava as faculdades de Letras, Ciências e Filosofia sob um único arcabouço institucional (e que também tinha o propósito de pesquisa), foi a Universidade de São Paulo, fundada em 1930. Somente na segunda metade do século 20, principalmente nas décadas de 60 e 70, é que houve expansão significativa da universidade pública no Brasil, com a criação de uma rede federal, estadual e municipal de grandes universidades por todo o país.

    Faculdade de Medicina da Bahia iniciada em 1832-- a primeira faculdade brasileira

    Faculdade de Medicina da Bahia iniciada em 1832– a primeira faculdade brasileira

  • Dado esse histórico, fica bem nítido o caráter público, limitado e “elitista” do ensino superior no Brasil. As primeiras faculdades imperiais atendiam a uma pequena parcela da elite brasileira; a maior parte dos filhos dessa elite ainda estudava nas grandes universidades da Europa, principalmente as de Portugal, França e Inglaterra. O surgimento da universidade pública no século 20, em rede muito limitada com relação a maior parte da população, continuou a atender os filhos e filhas da elite, pois o país ainda encontrava-se muito dividido entre as classes rica e pobre—legado de sua herança latifundiária-escravagista e de sua industrialização tardia; uma pequena classe média encaixava-se entre os dois polos de classe brasileiros e tinha acesso ao ensino superior.
  • Nos Estados Unidos, vemos o contrário. No Brasil agrário e semifeudal do Império pequenas faculdades brotavam de forma espalhada, enquanto que nos Estados Unidos—em pleno processo de industrialização e desenvolvimento tecnológico e científico—criava-se uma rede gigante de ensino superior dedicado às massas, mesclando instituições públicas e privadas.
    MIT em 1919

    Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 1919

    Centenas de novas universidades surgiram ao longo do século 19 nos Estados Unidos, no que é considerado, de fato, o primeiro grande projeto de ensino superior em massa da história. Entre as novas universidades desse período estão a MIT (Massachusetts Institute of Technology), fundada em 1861 em Boston, e CalTech (California Institute of Technology) nascida em 1891 na Califórnia—dois dos maiores gigantes mundiais em pesquisa e inovação tecnológica até hoje.

  • Algumas observações importantes seguem do processo americano: 1) tinha o objetivo de expandir a educação superior às novas classes medias que surgiam nesse período do grande boom industrial e comercial nos Estados Unidos; nesse sentido orientava-se não às “elites” de classe, mas à formação de um corpo profissional capacitado para integrar a nova rede institucional-burocrática, técnica e científica que surgia no país; 2) o ensino superior nos EUA sempre foi orientado à classe média, mesmo com as primeiras universidades nos séculos 17 na costa leste, privadas, fundadas por grupos religiosos protestantes de classe média.
    Harvard Fundada 1632

    Harvard Fundada 1632

    A ideia de “elite” em no ensino superior americano refere-se à formação das lideranças políticas, jurídicas, intelectuais e empresariais que combinam talento com acesso à educação, e não necessariamente à origem social; 3) um sistema que começou privado expandiu para o público, com a criação das grandes universidades públicas do século 19, entre elas a rede de ensino superior da Califórnia, que inclui as maiores universidades do mundo, entre elas a Universidade de Berkeley.

O que nos remete ao nosso ponto de partido que é o artigo do The Atlantic. Dizer que as faculdades públicas beneficiam a “elite” no Brasil é um argumento redundante e circular. De fato, o quadro tem mudado ao longo das últimas décadas: houve um crescimento significativo do ensino superior privado no país, preenchendo o buraco deixado pelo setor público. As faculdades privadas, com fins lucrativos, mesclam ensino profissionalizante com as escolas tradicionais como as de direito, engenharia e medicina, e tem atendido parcela significativa da população, inclusive adultos mais velhos, sedentos por educação superior. Essas faculdades, junto com as políticas de ação afirmativa implementadas pelo governo, como cotas e bolsas de estudo, de fato tem ampliado de forma importante o acesso à educação superior. Hoje, o percentual de adultos de nível superior é o maior da história do Brasil, chegando a 11%.

Vista aérea do complexo universitário da Universidade de São Paulo--a primeira e maior universidade brasileira

Vista aérea do complexo universitário da Universidade de São Paulo–a primeira e maior universidade brasileira, fundada em 1930

No entanto, continua um percentual baixíssimo, principalmente quando comparado aos EUA, com seus 40% de adultos cursando nível superior. Mesmo que nos EUA o acesso às melhores universidades por parte da classe média esteja ficando menor devido ao aumento de custo, ainda assim resta uma gama enorme de outras universidades boas e medianas, públicas e privadas, e de escolas técnicas que garantem o acesso ao ensino superior e a entrada no mundo profissional. No Brasil, o ensino superior ainda está em estágio embrionário, resultando em um dos maiores entraves para o progresso e o desenvolvimento pleno em termos de talento e potencial do país. A velha herança do Império persiste: ensino predominantemente público, mesmo com toques privados, e predominantemente de elite, mesmo com toques de uma nova classe média.

Publicado em culture, education, history | Tags , , , , , , , , , , , , , | Publicar um comentário

Washington e Rio, Apolo e Dionísio: Um Conto de Duas Cidades

A União é dos Opostos

blog cities rio imagemblog cities washington imagem

Ao longo de duas décadas, venho me esforçado para melhor entender não só o Brasil, mas a cidade do Rio de Janeiro, terra da minha família. A perspectiva comparada, sob lentes de uma outra cultura, muitas vezes nos proporciona a distância necessária para enxergar de forma mais clara o lugar onde estamos. Lembro-me que quando cheguei no Rio de Janeiro de Washington DC, minha cidade natal, ainda antes do fenômeno da internet, mandei um cartão postal para um amigo. A foto foi tirada do alto, focando a Avenida Atlântica à noite; no lugar dos carros estavam riscos vermelhos que pareciam varas incandescentes curvadas. Selecionei esse cartão porque para mim era o que melhor captava o espírito do Rio: escrevi , “…uma cidade feita do sopro de fogo dionisíaco….”.

A impressão que formo das minhas duas cidades, Washington DC e Rio de Janeiro, é a de um contraste entre o que Nietzsche chamava de Apolíneo e Dionisíaco. Na mitologia grega, Apolo é o deus da razão, da ordem, do controle e da estratégia, e da guerra; Dionísio representa a sexualidade, o vinho, a música e a dança, a arte, a improvisação e o instinto. Branco é a cor de Apolo; vermelho representa Dionísio.

Washington DC e Rio de Janeiro tiveram destinos similares: tornaram-se capitais imperiais no mesmo século. Em 1790, a Assembleia Constituinte nos Estados Unidos estabelecia um governo central que serviria de união sobrepondo-se aos estados americanos recem independentes, que até então formavam uma confederação decentralizada. O local escolhido para a capital desse novo governo central foi um enclave formado por pântanos entre os estados de Virgínia, no sul, e Maryland, no norte, numa espécie de fronteira norte -sul. Por cima desses pântanos, o arquiteto francês L’Enfant projetou uma cidade nos moldes neoclássicos iluministas: geométrica, retilínea, marcada por largas avenidas e espaços públicos, com áreas específicas reservadas para monumentos históricos e instituições. Em 1800, o governo americano transferiu-se oficialmente para a cidade de Washington, que recebeu o nome do primeiro presidente americano: George Washington.

É curioso que justamente no primeiro ano do século 19, uma nação nascente, que acabara de estabelecer-se oficialmente como país, inicia sua jornada rumo a Império. A partir da formação do governo central americano, o país expande para o Oeste, adere plenamente às revoluções industrial e científica, amplia sua infraestrutura com rede de ferrovias e navegação a vapor, e caminha para a conquista continental, e, em seguida, mundial. A expansão da cidade de Washington, sempre nos moldes geométricos de L’Enfant, de certa forma é um espelho da expansão dos Estados Unidos. Trata-se de uma cidade branca, quase etérea: uma espécie de escultura da História que, representada pela Razão e Astúcia Humanas, sobrepõe-se à Natureza. Cada monumento novo, sempre branco, representa um momento histórico em que a nação saltou para outra etapa de sua jornada determinada e linear rumo à Conquista: o do próprio George Washington, que é um obelisco no centro da cidade; a construção côncava homenageando Thomas Jefferson, o terceiro presidente, que iniciou a expansão continental para o Oeste em 1801; o retângulo com colunas, memorial de Abraham Lincoln, Presidente que venceu a Guerra Civil e garantiu a União dos Estados Unidos, em 1865, deflagrando um período de desenvolvimento e industrialização sem precedentes; foi esse processo que contribuiu de forma decisiva para transformar o país em potência mundial. Washington é uma cidade grandiosa, branca e planejada, centro de um império guerreiro. Um emblema do triunfo Apolíneo.

Washington DC no final do século 19

Washington DC no final do século 19

O Rio de Janeiro também tornou-se capital do Império Luso-Brasileiro com a vinda da corte portuguesa em 1808. A Corte formou o primeiro governo central do Brasil, e uniu, em torno de uma única estrutura institucional, a colcha de retalhos que eram as províncias decentralizadas, herdeiras do sistema de capitanias hereditárias. A nova Monarquia-Estado veio com espírito iluminista e e transformou o Rio de Janeiro no centro de seu projeto civilizador: criou uma rede de instituições dedicadas às artes, ao conhecimento e ao comércio. Ao longo do século 19, foram criados a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes, o Centro Histórico-geográfico, o Banco do Brasil, escolas técnicas, o Jardim Botânico, a Floresta da Tijuca, entre outros—todos no Rio de Janeiro. Abriram-se os portos brasileiros e foram importados artistas e cientistas europeus para retratar e estudar a nova nação sul-americana que se formava. Foi a Monarquia-Estado que tornou o Brasil independente, em 1822, e que também estabeleceu as fronteiras de um país continental.

O Paço Imperial por Jean Baptiste Debret, 1830

O Paço Imperial por Jean Baptiste Debret, 1830

O Império luso-brasileiro centrado no Rio de Janeiro foi bem distinto do seu contraponto norte-americano. Foi iluminista pela ênfase nas artes, na ciência e na cultura, mas preservara estrutura feudal portuguesa hierárquica, patriarcal e aristocrática. O Império manteve intacta a estrutura latifundiária escravagista, vigorosamente controlada pelo aparato central do Estado. E é neste ponto que esses dois gigantes continentais bifurcam: enquanto os EUA no norte deslancharam através da industrialização e da inovação tecnológica, o Brasil optou pela estabilidade e a ênfase na economia agrária.

Em outras palavras, o Brasil curvou-se à Natureza, ao invés de dobrá-la. O que se vê no Rio de Janeiro é o reflexo desse domínio das forces naturais, que serviram de justificativa para manter o Brasil agrário. Beneficiado pelo clima e pelos frutos da natureza exuberante, não havia motivo para o Brasil industrializar-se, ao menos esta era a lógica do Brasil Imperial. Ao contrário de Washington DC, uma cidade que reflete o triunfo do homem sobre a natureza, rígida na sua forma plana, de grade, e na sua amplidão e uniformidade, o Rio de Janeiro é antes de mais nada uma cidade DA natureza. Não há planejamento urbano nem arquitetônico; os monumentos e instituições grandiosas do Império se mesclam com construções modernas e contemporâneas, ecléticas na forma e no tamanho. É uma cidade de praias, lagoas e pedras enormes e dramáticas: a natureza invade a visão e a ação. Não há espaços delimitados: pobreza e riqueza, feiura e beleza, natureza e construção, tranquilidade e violência se misturam. Trata-se de uma cidade do presente e da improvisação, da sexualidade, da música e da cultura. A ênfase Imperial na beleza e nas artes, que contribuiu para a formação de uma cultura híbrida europeia, africana e indígena, impera ainda no Rio de Janeiro. Não há absolutos, nem linearidade. É tudo um caldeirão de possibilidades, de impulsos e instintos–caótico. O por do sol é tão grandioso, vermelho e incandescente quanto o sopro de Dionísio.

Publicado em culture, history | Tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 3 Comentários

Nordestinos Petistas, Sulistas Republicanos: A Irmandade Conservadora

O PT é tão Conservador quanto os Republicanos nos EUA

blog mapa eleitoral imagem blog mapa eleitoral 2

Os mapas eleitorais acima mostram os resultados das últimas eleições presidenciais no Brasil (2014) e nos EUA (2012). O nosso vermelho da esquerda populista (PT) corresponde, curiosamente, ao seu oposto nos EUA—o vermelho do ultra-conservadorismo populista representado pelo partido Republicano. O azul representa, em ambos os países, o eixo centro-esquerda: os Democratas nos EUA e o PSDB no Brasil.

Existem observações interessantes sobre esses mapas a nível de comparação e contraste.

  • Primeiro, em ambos os países existem diferenças regionais bem distintas com relação ao cunho ideológico e à tendência eleitoral. O vermelho Petista predomina no Norte e Nordeste–as áreas mais rurais do país, com maior índice de pobreza e menor índice de escolaridade; esta é a mesma realidade do vermelho Republicano nos EUA: as regiões do Sul e do Oeste norte-americanas são igualmente áreas mais rurais com menor população, e, principalmente no Sul, de maior pobreza e menor escolaridade.
  • É uma falácia olhar esses dois mapas e ver divisões entre “ricos” e “pobres”. Nos EUA a realidade é mais complexa. O Partido Republicano atrai as regiões mais pobres e rurais do país, mas também a classe dos ultra-ricos: aqueles que ganham mais de $ US 200,000 por ano, ou $RL 600,000.
  • No Brasil os ultra-ricos e a classe media-alta concentram-se nas areas mais populosas e urbanas e votam no PSDB. A diferença é que no Brasil a classe média é muito menor, e mesmo com a acensão da nova Classe C integrando a classe média emergente, ainda não há massa crítica que se compare ao peso desse setor nos EUA. As últimas pesquisas sobre o eleitorado brasileiro mostram a classe C rachada entre PT e PSDB. Nos EUA, a Classe média urbana em todas as suas subdivisões—média-alta, média-média, e média-baixa—tende, na sua pluralidade, a votar no Partido Democrata.
  • Nos EUA as classes mais pobres se dividem eleitoralmente de acordo com raça e cultura regional, com os negros e hispânicos de mais baixa renda votando no Partido Democrata, e os brancos, principalmente os das regiões Sul e Oeste, advindos da mesma faixa de renda, votando no Partido Republicano.
  • No Brasil não existe essa divisão entre as classes mais pobres; as pesquisas eleitorais demonstram um alinhamento de parte da população de menor renda com o PT.
  • As regiões “vermelhas” dos mapas—Norte e Nordeste no Brasil, Sul e Oeste nos EUA—são as que mais recebem ajuda do governo federal em termos de assistência social (Bolsa Família no Brasil e Previdência e Saúde nos EUA).

Como é que regiões com características similares produzem resultados eleitorais tão opostos? Como é que o eixo rural-baixa-renda vota na direita nos EUA e na esquerda no Brasil? E como é que, nos EUA, ao contrario do Brasil, esse eixo alinha-se aos ultra-ricos?

A resposta está em olhar a questão sob outro enfoque que não seja “esquerda” versus “direita”. O eleitorado “vermelho” no Brasil e nos EUA na verdade reflete um tipo de conservadorismo. A direita populista nos EUA baseia-se em plataforma política anti-Estado radical, em que qualquer atuação maior do Estado, seja como promotor de políticas econômicas ou sociais, é tabu. Sob esse enfoque, qualquer política assistencialista ou de cunho reformista que envolva aumento de impostos, regulamentação, interferência no setor privado e/ou nos chamados “direitos dos estados” é mal vista. O aumento do aparato estatal na forma de ministérios e agências representa o chamado “Leviatã” que ameaça engolir os direitos do indivíduo e dos estados.

As raízes de tais posições estão no federalismo americano, um arcabouço teórico e político que preserva os direitos dos estados contra abusos do governo central. O impulso federalista é mais forte justamente no Oeste e no Sul dos EUA. O Sul preserva sua herança cultural dos tempos da Confederação, no século 19, quando formava um bloco regional decentralizado unido pelo sistema socioeconômico da monocultura e da escravidão. Os sulistas brancos até hoje veem o governo central como ameaça aos seus direitos, um invasor que impôs dupla integração: com o Norte industrial após a Guerra Civil e com os negros descendentes de escravos nos anos 50-60. A ironia é que, mesmo sendo beneficiados pelo aparato desse Estado ameaçador, mesmo recebendo sustento e saúde do governo central, os sulistas ainda assim votam contra a ajuda.

É um tanto estranho analisar o apoio regional ao PT em termos de “conservadorismo”; no entanto, trata-se de fato de um impulso a preservar o status quo. O eixo vermelh0 –petista forma um bloco de preservação dos benefícios que recebe—o assistencialismo de diversos tipos, principalmente o Bolsa Família. Não há nenhum reflexo anti-Estado aqui; pelo contrário, essa região recebe o Estado, e todo o seu apoio em termos de subsídios, investimentos, e suporte, de braços abertos. Também trata-se de tradição cultural. A herança brasileira é patriarchal, centralizadora, e beneficente, passando por suas diversas encarnações no Coronelismo, Monarquia, República, e diversas ditaduras. É uma psicologia, e até certo ponto estruturas reais, que persistem até hoje. Qualquer tentativa de alterar ou reduzir esse esquema será fortemente resistido.

Publicado em culture, politics | Tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Publicar um comentário